Existem dias e dias. Anos que se perdem em desenganos.
Este, e o que passou, por sinal, são dois que não se devem lembrar.
Quantas desventuras por que temos passado. Quanta miséria mora ao nosso lado.
Quanta tristeza assola os nossos lares. Fome, desemprego, doenças, isolamento, confinamento, nos impede de confraternizarmos.
A cada dia mais mortes são noticiadas pelos jornais. Hospitais lotados.
Nestes dias de luto, onde a pandemia ceifa vidas por todas as partes, presenciamos tristeza, choro e ranger de dentes, filas onde não seriam aconselhadas, trabalhadores indo em busca de seu ganha pão. Contrariado a assertiva de permanecer dentro da sua própria morada, como ficar ali, no achego do seu lar, quando falta tudo, como se o maná caísse do céu, neste céu lindo que acordei no dia de hoje.
Estamos em pleno outono. E eu no outono inverno da minha existência.
Confesso, nestes anos todos de vida, não ter passado por tempos tão infelizes.
A cada dia mais desilusões cercam a minha vida. Felizmente a saúde me cavalga às costas ainda rijas. Mas o mesmo não tem acontecido a maior parte da população deste pais tão lindo e ao mesmo tempo tão desigual.
A tal doença não poupa idade. Ela se alastra tanto nos mais jovens quanto os de maior idade.
A vacina chega devagar. Não sei até quando iremos suportar.
Famílias inteiras passam dificuldades. Ontem mesmo o governo anunciou o novo auxilio emergencial. Como passar um mês inteiro com míseros cento e cinquenta reais? Isso mal dá para comprar o mínimo essencial. As contas continuam aumentando. A renda, na contramão, mais e mais se achata.
O céu voltou a brilhar. Pelo menos no alto. Da minha janela se permite ver ruas quase vazias. Lojas continuam de portas fechadas. Comerciantes se desesperam.
Não sei o que é pior. Se a tal doença ou a miséria que ela traz no seu rastro.
Daí, como ficar em casa se lá fora mora o trabalho? A única maneira de trazer para casa o sustento da família.
Como suportar os inconvenientes do isolamento num dia lindo como o de hoje?
Contrariando as recomendações continuo fazer quase tudo que fazia antes. Só que bem sei que não é como dantes.
Consultórios vazios contrastam com supermercados lotados.
Ontem, ou talvez tenha sido na semana passada, passei por um pedinte a porta de um banco.
Ele estendeu-me a mão. Pediu, simplesmente, com os olhos molhados de sofrimento, que eu lhe desse um auxilio.
Naqueles olhos tristonhos percebi toda a angústia que lhe tomava a alma. Era bem jovem o rapaz. Talvez nem vinte anos.
Como não estava com nenhuma moeda no bolso tentei amenizar-lhe a desdita. Entabulamos uma prosa amistosa. Embora fossemos desconhecidos.
Ele se chamava Pedro. Escusei-me de saber o sobrenome.
Disse-me ter vindo da Bahia. Precisamente de Feira de Santana.
Lá deixou a esposa e dois filhos menores. Como não tinha emprego foi tentar a sorte em outras paragens.
Perambulou por rodovias e estradas poeirentas. Tornou-se um andarilho.
Em nossa cidade havia chegado a um par de dias. Dormia pelas ruas. Vivia de esmolar.
Escorraçado como um cão vadio não tinha pouso certo. Comia o que lhe davam.
Naquela hora do dia, já passava do meio dia, antes de nos despedirmos ainda perguntei: “Pedro, o que posso fazer por ti”?
E ele me respondeu: “ninguém pode fazer nada por mim.”
Desde então nunca mais vi o Pedro. Com certeza ele vagueia por aí.