Cansei de tanto ouvir falar em morte

Louvo a vida.

Lidar com a morte nunca foi tarefa agradável.

Todos os dias é a mesma ladainha.

Perderam a vida, durante as vinte e quatro horas, mais de três mil pessoas. Na semana passada a mesma cantilena. Noutro dia os mesmos acontecimentos enluraram famílias inteiras.

No meu aquário, sempre que aqui chego, principalmente às segundas-feiras, deparo-me com um peixinho morto. E o pobrezinho aparece boiando. Nem direito a sepultamento ele tem direito.

Simplesmente o atiro pela janela e penso que ele consegue voar. O voo dos pássaros é uma realidade. No entanto peixes não voam. Só sabem nadar.

Faz mais de um ano que a tal pandemia começou. De lá pra cá não se fala noutra coisa. Até parece que a vida não vai continuar.

Confesso estar cansado de tanto falar em óbitos. E as crianças que nascem sadias? Elas não contam? A vida é uma sucessão de nascimentos e mortes.

A gente nasce, cresce, de repente adoece, e, quando menos se espera lá vem a tal morte, que nos leva para algum lugar ainda desconhecido.

Já perdi tantos amigos. Meus pais se foram. Meus saudosos avós partiram antes. É a ordem natural das coisas.

O difícil é assistir a um pai enterrar um filho. Nessa hora ingrata lágrimas salpicam o canto dos olhos.

Como médico deveria me acostumar aos óbitos. Até hoje, nesta caminhada de tantos anos, vendo pessoas morrerem, velhos, jovens, não tenho como conter lágrimas ressentidas escorrerem pelo canto dos olhos.

Bem sei que a morte é inevitável. Mas que ela venha na hora certa. Quando a saúde nos abandonou de vez. Quando não temos mais perspectivas de viver em paz.

Viver atrelado a um leito de hospital, sem pelo menos esboçarmos um gesto, um aperto de mão, ligados a tubos e sondas, pupilas dilatadas, inermes, que a morte nos venha buscar. Neste momento desejo, a mim mesmo, não continuar neste estado vegetativo, que eu parta em direção a outro mundo. Se é que ele existe.

Confesso estar cansado de tanto ouvir falar em morte. De tantas doenças que nos cercam.

Neste inicio de outono, dia fresco, céu quase azul, melhor falar em vida.

E que vida linda nos espera. Em cada curva do caminho. Em cada esquina. Em cada abraço que nos aproxima. Em qualquer gesto de carinho.

Cansei de tanto ouvir falar em mortes. Que ela venha na hora certa.

Se possível durante o sono. Durante a noite. Sem que eu perceba a sua presença inevitável.

Estou cansado de tantas mortes que têm acontecido. Um dia serei eu. Serão vocês.

É o que desejo a cada um de vocês. Não a morte. E sim viver intensamente. Não apenas neste inicio de outono. Como pra todo o sempre. Enquanto o desejo nos permitir.

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