Mais um dia morto

Que tempos difíceis estamos atravessando.

Pelo noticiário só assistimos a mortes, sofrimento, crise, desemprego, desesperança.

Não se fala noutra coisa a não ser nesta doença. Parece que outras enfermidades deixaram de existir.

Hospitais lotados. Parentes desesperados a porta dos hospitais sem saber o que vai ser com aquele ente querido, que ali foi internado a noite passada, respirando com dificuldades, sem a menor perspectiva de continuar vivo.

Este é o retrato em preto de branco do que anda acontecendo mundo afora.

O Brasil não foge à regra. Aqui as estatísticas são ainda mais sombrias. Batemos recordes negativos da tal pandemia. Cada vez mais pessoas falecem. E são enterradas sem sequer poder receber parentes durante o sepultamento.

Cemitérios abarrotados de gente. Unidades de tratamento intensivo lotadas.

Famílias inteiras mendigam migalhas. Não se sabe até quando iremos suportar tal estado de coisas.

Aquele jovem, recém-formado, graduado em direito, depois de anos de espera, já que a faculdade permaneceu fechada por muito tempo, afinal, depois de passar noites em claro, recurvado sobre grossos compêndios, recebeu a tão sonhada habilitação para exercer aquela profissão.

Parecia que seria mais um sonho concretizado.

Manuel nasceu em família pobre. Bom aluno, estudioso, aquele rapazola de cor escura, magricela, conseguiu, a duras penas, abrir um escritório num prédio em final de obra.

Ali montou, naquela salinha modesta, um lugar aconchegante onde poderia receber os clientes,

Passaram-se dias. As contas amontoavam-se no tampo da mesa. E nada de alguém aparecer.

Manuel, esperançoso de dias melhores, passava o tempo todo à espera. A sua agenda, sempre vazia, não dava sinais de que algum dia iria melhorar.

Meses se transformaram em anos. E a crise se alastrava como fogo em palha seca.

As ruas, durante a pandemia, permaneciam vazias. Lojas fechadas era um tormento a quem precisava vender seus produtos.

E o consultório do infeliz advogado, em inicio de carreira, vivia às traças. Ninguém aparecia por lá.

Foi numa quinta-feira, do mês de março, que encontrei Manuel a porta de um banco.

Ele esperava pelo auxilio emergencial. Uma fila enorme se formava. Sol a pino. À sombra a temperatura beirava os trinta e cinco graus.

Tentei confortá-lo. Dizendo que a situação iria melhorar. Só não disse a partir de quando.

Quando estava prestes a me despedir do infeliz causídico, dele ouvi esta expressão que me fez pensar: “mais um dia morto. E quantas mortes aconteceram de ontem pra hoje. São inúmeras. Graças a Deus ainda estamos vivos. A minha vida ainda vai melhorar”.

Do lado direito, recostado a um travesseiro, deitado no passeio, um pedinte mendigava. De mãos estendidas ele suplicava o nosso auxilio.

Mais um dia morto. Na vida de cada um de nós. Até quando? Deixo esta resposta a quem quiser me responder. Já que não sei como predizer o futuro.

Assim tem acontecido nestes tempos duros. Acreditem. Um dia vai passar.

 

Deixe uma resposta