Saudades da minha rocinha

Afinal são mais de quarenta anos de tumultuado convívio.

Aqui cheguei nos idos anos de um mil novecentos e setenta e sete.

Três anos depois, já na década de oitenta, graças as minhas economias de começo de carreira, decidi investir numa gleba de terras, pertinho, no município de Ijaci.

Ainda me lembro daquele dia.

Seu João Pereira, sogro do Marcão Canela Grossa, hoje empresário de sucesso, levou-me a conhecer a sua rocinha encantada. Caminhamos morro acima e descida abaixo por cerca de duas horas inteiras.

Ele, palrador de mancheia, não parava de falar nem por um minuto. Conhecia em detalhes ínfimos cada palmo da sua propriedade.

Acordamos sobre o preço. Em menos de uma hora inteira acabamos fechando o negócio.

Foram mais de trintanos tentando entender o porquê de o leite ser branco já que ele sai de uma vaca preta. Fiz catiras. Levei manta na cacunda.

Incontáveis retireiros passaram por minha rocinha prejuizenta. Perdi a conta de quantos foram e o quanto de prejuízo acabei levando.

Mesmo assim continuei na lida.

Há anos tive uma ideia que me salvou da bancarrota. Arrendei meu pedaço de terra a um amigo que entende de vacas e suas crias.

Agora somos felizes. Ele fica com o trabalho pesado. Eu, não querendo me afastar daquela rocinha encantada, acabei construindo uma morada na beira de uma represa.

A cada final de semana dou um pulinho até lá. Trata-se de um lugar paradisíaco. O qual não comparo a nenhum resort a beira mar.

Na minha rocinha encantada não se usa máscara. Pra quê? Se o isolamento ali já existe. As vacas, se aglomeradas, não transmitem o tal do vírus. Nem que a vaca tussa.

Na minha rocinha encantada se fala arrevesado. Pur causo de quê? Escafedi na braquiária.

Esturdia, era uma tarde quente, quando fui a cavalo visitar um amigo de cerca, seu Zé, da dona Preta, que por sinal era branquinha como floco de algodão, dele ouvi um causo, que ele desconjura ser de verdade. Quando ele ia apartar as vacas de suas crias uma cascavel enrolou-se em sua canela. Era uma cobrinha de nada. Media, da ponta da cabeça, ao guizo do chocalho, mais de dois metros de comprimento. Seu Zé, numa enxadada só, partiu a cobrona ao meio. Retirou o couro, fez ensopado com a carne, e me ofereceu uma sopa que degustei com sabor de mentira.

Na minha rocinha encontrada não se tem tempo pra quase nada. Ali se acorda cedo. Ao cantar do galo e cacarejar das galinhas. Antes da seis já estamos com o leite tirado. Lá, naquele lugar especial, vaca não dá leite. Tem-se de tirar. Aliás, nada ali sai de graça. O preço da ração está pela hora da morte. A silagem de milho fica caro para enfiar no buraco. E quando o laticínio paga o dono da vaca fica no prejuízo. Mesmo assim ele não desiste. Persevera no pasto. Até as próximas chuvas. A cada ano é a mesma ladainha. Gente da roça não se acostuma na cidade.

Na minha rocinha encantada respira-se um ar puro como a donzela que se perdeu um belo dia. Mulher na roça só tem serventia para procriar. E, quando nasce um gabiru, aquele bezerrinho raçado, nanico e saltitante, ele logo vira linguiça. E é vendido ao açougue como carne de segunda. A um preço pra lá de aviltante.

Na minha rocinha encantada não tem tempo ruim. Mesmo que a seca prepondere. Que as chuvas provoquem enchentes.

É ali que passo os melhores momentos de minha vida cheia de tormentos. Ali me isolo do mundo. Penso ser o rei da cocada preta. Quando a terra cai, da minha calça gasta, logo a devolvo ao mesmo lugar. Ninguém tira o que é meu.

Hoje é quarta-feira. Outono se fez.

Não vejo a hora de chegar o sábado. Já estou mugindo de saudade da minha rocinha encantada. Deus me livre dos ares da cidade. Aqui respiro pó de asfalto. Lá, me fala fundo no peito uma vontade imensa de me mudar da cidade.

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