Verdade incontestável.
Ontem foi segunda-feira. Antes de ontem caiu num domingo. Hoje se comemora uma terça- feira. E amanhã, outro dia se anuncia.
Nada como um dia depois do outro. Imagine se todos os dias fossem iguais.
Seria uma desfaçatez acordarmos numa segunda, sabendo que amanhã seria outra segunda.
A vida seria insuportável não fossem as mudanças. A rotina se torna enfadonha. Fazer tudo igual a cada dia considero quase uma heresia. Pra não falar em coisa pior.
Esta terça-feira amanheceu um dia lindo de sol. Parece que as chuvas serenaram. Para voltarem noutro dia. Quem sabe no próximo verão. Ou noutra manhã linda como esta.
“Nada como um dia depois do outro”. Assim dizia um amigo meu.
Juvenal era um caboclo da roça. Mãos caludas. Tez tostada de sol.
Juvenal era um enxadachim de primeira. Sabia manejar a foice com destreza e competência.
Pra ele não tinha tempo ruim. Fosse um dia chuviscoso. Ou quente como a alma do capeta.
Juvenal acordava sempre ao cantar do galo. Antes das cinco já se punha de pé. Tomava um cafezinho requentado na trempe do fogão a lenha. Ia ao banheiro sem se olhar no espelho. Também, com aquela feiura de escorraçar morcego, mais parecia um sapo barbudo, dai a solteirice que ele se destinou fazia tempo. Aliás, tempo era o que lhe faltava.
Sozinho ele comandava uma fazenda inteira. Era o capataz, o peão, fazia de tudo um pouco.
Era ele quem ordenhava as vacas. Carpia o mato denso em volta da casa. Senão aquilo tudo viraria um sarandi danado.
Juvenal vivia só. Companhia não lhe faltava. De quando em vez, quase nunca, fazia uma visitinha ao arraial pertinho de onde morava. Era a conta de comprar os mantimentos. Ia num pé e voltava noutro. Buscava fogo. Ele mesmo se dizia.
Num dia, parece que foi ontem, durante esta pandemia que nos atazana, parece não ter fim a danada, fui fazer uma vistinha ao amigo Juvenal.
Já era quase meio dia. Dia quente, um calor infernal.
Deparei-me com uma cena que me fez pensar.
Juvenal, vestido numa fatiota de ir à missa, carpia um matagal enorme em volta de sua casa. Era um mato denso de esconder cobras e lagartos. Quase não se podia ver a terra desnuda no entorno de onde ele estava.
Juvenal suava em bicas. Molhado até os ossos. Que quase se deixavam ver.
Naquela roupa escura, em tempos idos parecia um terno, camisa que já fora branca, agora era pura terra, Juvenal mais parecia um padre rezando missa. Só faltava a batina que não se usa mais.
Tentei me fazer ouvir. Juvenal, gesticulando como se quisesse me dizer alguma coisa, continuava a carpir o mato. Ele não tinha tempo a perder. Cada minuto lhe era precioso. Como o ar que respiramos.
Meia hora depois, quando me preparava para ir embora, consegui, afinal, tirar dele um dedo de prosa. Já passava das duas horas da tarde. Uma tarde quente úmida e sufocante.
“Juvenal, você sempre trabalha deste jeito? Vestido com esta roupa escura? Não seria um traje de ir à missa? Ou de fazer uma visita ao confessionário”?
Foi quando ele, parando um cadiquinho, me respondeu, com um sorriso no rosto: “não importa se hoje é sábado. Que seja num domingo. Não tenho que dar satisfação a ninguém. A roupa é minha. E uso aquela me apetece. Se tenho vontade de trabalhar pelado, que mal que faz”?
Sai daquele lugar sem resposta a dar ao amigo Juvenal.
Nada como um dia depois do outro. Isso acabei levando pra casa. Sem mais delongas.