Não faço outra coisa, senão…

Nestes tempos difíceis, onde falta de tudo, trabalho, paciência, saúde, dinheiro no bolso, quase sempre vazio, a não ser para uma minoria esmagadora da população, temos de esperar.

Com certeza dias melhores virão.

Se me perguntarem quando? A resposta fica guardada numa incerteza que paira em minhas ideias. Um dia. Quem sabe?

Oxalá não tarde muito. Pois estamos no limite de nossa paciência.

E como tem sofrido as gentes do mundo inteiro. Falta-lhes quase tudo. Inclusive a certeza de até quando iremos suportar.

A crise se manifesta em cada esquina. Lojas em decadência. Salários cada vez mais exíguos. O desemprego se alastra pelo pais inteiro. As empresas pedem socorro. E o governo, cada vez mais perdido, não sabe o que fazer para atenuar o sofrimento de todos nós.

Filas imensas se formam à porta dos bancos. A espera daquele auxilio minúsculo. Que mal dá para suprir a despensa. O aluguel em atraso, as contas vencidas, a fome chegando, mesmo assim os boletos se amontoam no tampo da mesa. Ontem mesmo cortaram a energia elétrica de uma casinha modesta. A expressão de tristeza estampada na face daquele pai de família quase me fez chorar.

Ontem mesmo, domingo, numa ida a um supermercado, encontrei-me com um amigo de anos atrás.

Seu Joaquim estava aposentado. Há precisamente um mês atrás.

Trabalhou por anos a fio numa carpintaria. Ali, com rara maestria, fabricava móveis de cozinha.

Aos quase setenta anos, não mais capaz de produzir como dantes, decidiu, contrariado, aposentar-se.

As doenças ainda não se aboletavam em seu corpo ainda forte o bastante para continuar.

No entanto, naquela idade, como conseguir trabalho? Já que o desemprego era um dura realidade neste Brasil que tanto amamos.

Durante a nossa curta conversa, pois ele tinha pressa de voltar a casa, trocamos informações sobre o momento que passamos.

Seu Joaquim aposentou-se com dois salários mínimos.

Em casa dois filhos maiores viviam às suas custas. Mais dois desempregados neste país desajustado.

Perguntei-lhe o que fazia. Se ainda tinha alguma renda para curtir a merecida aposentadoria.

Ele me contou que fazia bicos. Limpava lotes. Era jardineiro nas tarde vazias.

Ainda lhe perguntei se tinha tempo para descansar.

Foi quando ele me respondeu, com os olhos marejados de lágrimas: “se quer saber não faço outra coisa senão pagar as contas. E elas se amontoam sem hora de serem pagas. Meus dois filhos continuam em minha casa. Por sorte não se casaram. Se transformaram em filhos cangurus. Se quer mesmo saber não faço outra coisa se não esperar dias melhores. Torço para que esta pandemia termine logo. Não vejo a hora de descansar”.

Despedi-me do seu Joaquim com um aperto de mão.

Da mesma maneira eu também não tenho feito outra coisa senão pagar as contas. Já que o salário de aposentado mal dá pro gasto.

 

 

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