Não se pode deixar pro amanhã

O tempo ruge. A pressa me consome.

A partir de certa idade, perdida a mocidade, temos pressa de não chegarmos adiante.

De vez em quando me pergunto: quantos anos mais viverei? A essa indagação não desejo saber a resposta. Procuro viver bem o dia de hoje. Fazer apenas o que me apraz. Aproveitar ao máximo o tempo que me resta.

Bem sei que o amanhã é uma incógnita. Nem pretendo saber  o que vai acontecer, de agora a algumas horas, passados alguns minutos, num átimo de segundos. Só sei que nada sei. Esta indefinição faz parte de mim. Ainda bem.

E assim caminha a humanidade. Perdemos a mocidade, chegamos à idade adulta, decrépitos nos tornamos. E, num dia ignorado, somos levados à sepultura. Uma cova rasa, um jazigo de onde não sabemos o nosso destino. Se existe vida depois desta. Ou se acaba ali a nossa passagem nesta terra tão linda. Pena que cada vez mais a degradamos.

Desde quando passei de certa idade tenho uma compulsão que me domina.

Acordo cedo. Ao raiar do dia. A noite para mim é um desperdício de tempo.

Por que passar oito horas inteiras de olhos fechados. Se temos tanta coisa linda a admirar?

Pra que perder tempo a dormir? Durante a noite escura nada vemos. Nem mesmo a chuva que cai. A azulice do céu. Ou até mesmo a cinzentice que pode se transformar na chuva mansa. Que não só irriga as plantações. Como também faz o homem do campo sorrir.

Nesta altura da minha existência o agora não pode se transformar em depois. É agora ou nunca.

Daí a minha ansiedade em viver em plenitude o momento presente. Que em verdade é um presente. Pois não sabemos quanto tempo mais nos resta. Sonora e pertinente verdade.

Vivo em constante alerta. Desperto já com os sentidos apurados. Não perco tempo. Cada minuto é uma dádiva dos céus.

O hoje pra mim é agora. O amanhã deixo pra depois. Tenho pressa. Jamais deixo alguém a minha espera. Chego antes. Pois não sei o que me aguarda numa curva do caminho.

Nesta idade que me cavalga às costas, passados mais da metade da minha vida, não se pode deixar pra depois.

Se nem hoje não sei o que vai ser de mim o que será do amanhã?

Dai a minha incapacidade de pensar duas vezes. Chego na hora marcada. Saio antes da hora.

Tenho pernas rápidas. Meu pensamento voa como um pássaro. Veloz como as asas do beija-flor.

Não deixo pra depois o que tenho de fazer hoje. Até mesmo faço antes da hora.

Este é o meu estilo de vida. E, não pretendo mudá-lo. Pois sou assim.

Até quando não sei. Até quando minha vida se esvair num sopro. Por isso vivo intensamente. Sem medo. Sem falsos pudores.

Bem sei que o amanhã vai chegar. Até quando? Daí o meu desejo de viver sofregamente. Sorvendo gota a gota, minuto a minuto, toda esta beleza que me salta aos olhos. Até quando puder enxergar toda a magnificência de dias que escorrem rapidamente.

Nunca irei deixar a vida passar sem que a possa aproveitar a cada momento. Pois não sei o que vai ser de mim, de nós, quando esta pandemia passar.

Quando puder descansar, enfim, que seja num dia como o de hoje. Céu límpido. Poucas nuvens pairam no alto. Nesta segunda-feira, meados de março.

E, pretendo continuar assim. Não deixando a vida passar sem poder contemplar  toda a beleza que nos foi presenteada por um ser superior, que não se deixa ver. Mas sinto-lhe a presença em cada dia.

Faço deste dia um louvor de agradecimento. Pela vida que tenho levado. Pela família que me foi contemplada. E, finalmente, pela inspiração que me bafeja, a cada manhã. A cada dia que nasce.

Deixe uma resposta