Uma aura de luminosidade nesta manhã cinzenta de saudade

Como choveu na noite de ontem.

Mal consegui dormir. Os pingos de chuva tamborilavam no vidro da janela.

Agora, antes das sete da manhã, o cinza ainda predomina. Na linha do horizonte uma nesguinha de claridade se anuncia.

Parece que no decorrer do dia vai fazer sol. Como de vezes anteriores não me aprazem dias cinzentos. Prefiro o clarume do sol. A azulice do céu. Dias claros são de minha predileção.

Bem sei que a chuva faz falta. Principalmente nos ares do campo. Onde o verde da pastagem, a terra molhada, a umidade do solo, é o cenário ideal para o plantio.

No entando, aqui na cidade, a chuva em demasia acaba atrapalhando a vida de quem trabalha longe de casa. Filas imensas se formam a espera do transporte que por vezes tarda. As aglomerações devem ser evitadas. E as enchentes podem por em risco pessoas que moram em lugares condenados. Barrancos podem desabar. Mortes são anunciadas depois de temporais. Vidas são ceifadas. Jovens, velhos, crianças, perdem a vida prematuramente.

Nesta sexta-feira, doze de março, amanheceu um céu cinzento. Agora a chuva parou de cair. O cinza ainda predomina.

Como será o sábado? Vai ser um dia de sol? Ou será outro dia chuvoso, cinzento, sombrio.

Na linha do horizonte um clarume, uma nesguinha de sol, se mostra na infinitude. E, à minha mão esquerda, naquela mesma rua, sempre companheira dos meus escritos, naquela casa agora vazia, onde moraram meus pais, acorda-me uma aura de saudade, dentro da cinzentice da minhalma, que acordou taciturna depois de uma noite mal dormida.

Faz-me falta a claridade. Causa-me intranquilidade dias nublados.

Naquela mesma rua, naquela mesma casa, refém da saudade que sempre me cavouca o peito, há tempos vivia, eu menino, ao lado dos meus queridos pais.

Agora nada mais resta senão uma nostalgia imensa. Como eram bons aqueles verdes anos.

Bem sei que não se pode viver sempre atado ao passado. O presente deve ser o motivo de nosso viver. E o futuro uma incógnita a ser compreendida com o passar do tempo.

Agora mesmo o sol acordou. Ele deve ter dormido em companhia da lua. Quem sabe fizeram amor.

A azulice do céu me faz pensar nos velhos anos. Ao lado dos meus pais. Naquela mesma rua. Na mesma casa agora vazia.

Hoje acordei com uma aura de saudade neste dia cinzento. Mais tarde deve fazer sol.

No final de semana com certeza pode chover de mansinho.

Oxalá não seja uma chuva tempestade. Que não me permita deixar de sentir saudades. De um tempo bom que passou. Pena que não volta jamais.

Naquela mesma rua, naquela mesma casa, agora entregue as relembranças, sinto por dentro uma nostalgia imensa. Por não poder, nem por um minuto apenas, abraçar, mais uma vez, efusivamente, aqueles que me deram a vida, há tempos que se vão ao longe.

Mais uma vez, uma aura de luminosidade entrou-me peito adentro, nesta manhã carregada de saudade deles.

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