Sem mais delongas…

Nunca fui de me alongar tanto.

Tento falar o necessário. Para que minhas palavras não se percam no vazio.

E digam mais do que preciso.

Diz um ditado, que faz parte da sabedoria popular, que: quem fala demais dá bom dia a cavalo. Isso se aplica a quem fala mais do que o necessário. E eu pretendo não fazer parte desse quinhão de pessoas. Verdadeiras maritacas palradeiras. Que fazem aquela arruaça nos ares em tempos de jabuticabas maduras.

Dizem, que quando as palavras se perdem ao vento, com este tempo escasso em que estamos vivendo, perde horas baldias, envereda-se pelo caminho errado, não apenas perde tempo, como da mesma forma acaba não se fazer entendido.

Havia um professor, nos meus tempos áureos de estudante aplicado, no máximo contava com dez anos, se tanto, quando ele pedia a palavra, era aula de português, assim começava a sua preleção: “sem mais delongas”. Dizia ele. No alto da sua sabedoria de mestre experimentado, curtido na sua idade, de nome – Sinval Silva.

Ainda me lembro bem dele. Calvo, de estatura pequenina, ele assim se referia quando o assunto era altura.

“A verdadeira altura de um homem se mede do alto da sobrancelha a raiz dos cabelos”.

Como ele não tinha pelos desnecessário dizer que a altura da gente, quando mais calvo ficamos, se contarmos a medida do alto da sobrancelha, a raiz dos cabelos, quando mais careca formos maior a nossa altura. E não importa a envergadura. O que conta é a massa cinzenta. Também chamada inteligência. Fator diferencial mais importante que a verdadeira altura da gente.

Professor Sinval se foi. Quantos anos faz nem me lembro.

Com ele aprendi muitas coisas.

Que quando me chamam de nanico, ou pintor de rodapé, logo me olho no espelho. E, naquela superfície espelhada, nesta idade que ora me cavouca, logo percebo que não sou tão pequeno assim. A distância entre o alto da sobrancelha, e a raiz dos cabelos, tem aumentado com o tempo. A minha calvície não para de aumentar. Já eu parei de crescer.

Já outro professor, de saudosa memória, era mestre em português, de nome Roberto Coimbra, aparentado a um grande amigo que já se foi, de nome Pedro, quando começava a sua lição, costumava recitar Camões: “as armas e os barões assinalados, que da ocidental praia lusitana”…

E percorria um longo caminho por aí afora.

Confesso que me cansava de tanta prosa. Preferia as citações mais curtas. Tantas palavras me fatigavam.

No meio da aula, a plateia já exausta, ele encerrava a preleção com esta frase. Exatamente assim: “sem mais delongas”. Ainda bem que tudo terminou bem.

Espero não tê-los cansado com esta ladainha sem pé nem cabeça.

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