Alguém já viu vaca tossir? Ou, quando resfriada, espirrar?
Pois eu já assisti.
Era uma manhã nevoenta. Em pleno inverno.
A cerração densa cobria tudo ao derredor. Mal se via um palmo adiante do nariz.
Fazia frio. Enregelava-me da cabeça aos pés.
Naquela quase madrugada, o relógio assinalava cinco da manhã, era eu menino, criança ainda, quando, naquela rocinha de umas tias avós, no município de Perdões, que ainda guarda dentro dela, bem preservados, traços do seu passado, que se confunde ao meu, minha avozinha querida tem no seu sobrenome Alvarenga, como a grande parte das gentes que ainda vivem em Perdões, quando perambulava sonolento pertinho do curral, a fim de ver, com meus próprios olhinhos a primeira ordenha da manhã, constatei que uma das vacas do retiro do meu tio Júlio tossia.
Acredito ter sido uma gripezinha qualquer. Quase igual àquela que o nosso presidente disse, logo no começo da pandemia que ainda deixa marcas no mundo inteiro. Ceifando vidas. Levando saudades a todos aqueles que perderam seus entes queridos. Colocando em polvorosa as cidades. Fechando lojas. Lotando os hospitais. Provocando uma enorme crise. Sem hora ou tempo de terminar.
Conheço um senhor, nascido e crescido na roça, de nome descomplicado, ele assina apenas Zé, desconhece o sobrenome, não sabe de onde veio, o ano exato quando nasceu.
Zé é a simplicidade em pessoa. Bem vivido, curtido naquele solão de verão, dispensa usar chapéu, na chuva não se agasalha, ele vive bem, como queiram. Caso o levarem a cidade ele renega. E diz, com aquela falinha mansa: “aqui nasci. Cresci. Causo me tirarem do meu lugar não sei o que faço. Amo a minha rocinha encantada. Desejo ser enterrado debaixo da jabuticabeira, que eu mesmo que plantei. E não troco a minha rocinha por nenhum lugar deste mundão de Deus”.
Assim seja feita a sua vontade.
Foi numa tarde de sábado, em plena pandemia, que com ele me encontrei.
Os números da doença só aumentavam. Eram cifras alarmantes. Cidades decretavam o lockdown.
As autoridades sanitárias recomendavam não sair de casa. E a tal doença apenas aumentava.
Neste nosso breve entrevero falamos sobre amenidades. Sobre o preço do leite. Sobre a safra de milho. Que, felizmente passou de ser boa.
Seu Zé permaneceu em silêncio. Simplesmente ouvindo minhas novidades.
Antes de nos despedirmos, pois já era hora de voltar pra casa, recomendei-lhe cautela.
Lembrei-lhe da tal enfermidade. E que ele, no alto dos seus muitos anos, era considerado grupo de risco. Daí a necessidade de ficar em casa.
Foi quando escutei, da boca do amigo Zé, esta expressão que me fez pensar: “ficar em casa? Nem que a vaca tussa”!
E não é que o amigo Zé tinha razão? Quem vai tratar do gado? Que vai tirar o leite? E quem vai encher a despensa da casa? Pagar as contas? Zé não usa o tal auxiílio emergencial. E nem sabe o que é isso.
Deve ser muito bom ficar em casa. Sobremodo aqueles que não tem contas a pagar. E conseguem viver à custa de alguma renda não declarada. Como tantos figurões que por aí pululam. Sanguessugas de um país de tanto desperdício.