Até quando as nossas forças permitirem.
A nossa coragem suportar. Enquanto este estado de coisas perdurar. Ignoro o quanto irei aguentar.
Essa pergunta é feita quantas e quantas vezes. E ela é respondida com divagações, desconversas, devaneios.
Quantas e quantas vezes ouvi, da boca de amigos, pessoas as quais não conhecia, esta mesma interrogação, nestes tempos difíceis por que temos vivido.
Suportar, ter forças, é qualidade dos fortes, dos bravos, aos quais sempre devemos exaltar.
Concordam que não é fácil passar por tudo isso. As mortes que têm ocorrido. As dificuldades de se conseguir trabalho. Os preços em ascensão. E as tais vacinas que quando chegam mal dão para amenizar as longas filas que se formam à porta dos postos de vacinação.
Ter coragem só não basta. É preciso muita paciência e resignação.
A mídia não fala noutra coisa. As estatísticas se mostram sombrias. Cada vez mais a tal pandemia se alastra por toda nação.
Covas são abertas. Mortos se enfileiram a porta das funerárias. Nem despedidas nos são permitidas. Caixões não são abertos.
Esta doença não respeita idade. Não importa se branco, rico ou pobre, jovem ou ancião.
Ela nos pilha com tal intensidade. Priva-nos de respirar. Com tanto ar que brota de fora de nossa janela.
Quantas mortes já aconteceram. A cada dia mais um. Menos uma vida a contemplar.
Conheço uma pessoa querida. Há anos temos nos cruzado pelas ruas de nossa cidade.
Seu nome – Augusto. Mais conhecido por Augustinho devido a sua estatura diminuta.
Ele foi enfermeiro num posto de saúde onde trabalhava. Há tempos se aposentou. Não por idade. E sim por fraqueza generalizada.
Ele era educado e gentil. Querido pelos pacientes. E por todos que o conheciam.
Desde que a pandemia começou Augustinho afastou-se da lida.
Até hoje sinto-lhe a falta. Era ele quem me dizia, com aquela vozinha fanha: “doutor, este é o último paciente da manhã”.
Depois subia a rua, a passos rápidos, sempre caminhando, em direção a minha casa.
Foi ontem que me encontrei com ele. Por usar máscara quase não o reconheci.
Foi ele quem me puxou pelo braço: “doutor, por onde anda. Sinto saudade de você”.
Conversamos sobre a vida que temos levado. Sobre as agruras do momento. Falamos inclusive do tempo. E como tem chovido neste começo de ano.
Augustinho, magro, quase esquálido, não se conteve. Contou-me detalhes de sua vida.
Confidenciou-me que, desde o seu afastamento, tem passado por enormes atribulações.
O salário de aposentado mal dá para suprir as despesas. Ele mora de aluguel. As contas se amontoam pelo tampo da mesa.
Ele não vai ao supermercado pois lá não vendem fiado. Passa inclusive fome.
Há uma semana inteira sentiu no peito uma falta de ar. Uma febre inconsistente tem o acompanhado. Foi ao médico a semana passada. Ele não tinha tempo para examiná-lo a contento.
Naquele dia do nosso encontro senti que Augustino respirava mal.
Antevi que algo de anormal a ele acontecia. Recomendei-lhe que procurasse novamente o hospital.
Pensei cá comigo: não seria a tal doença da moda?
Dias depois fui informado do estado do amigo Augustinho. Ele acabara de falecer. Num leito de um hospital. Mais uma vitima da tal doença que não tem hora de terminar.
Ainda me lembro das últimas palavras do amigo: “doutor, a continuar assim, não sei quanto tempo irei resistir”.
De fato. Em verdade o pobre Augustinho pouco durou. Não resistiu a esta doença. Que mais e mais faz vítimas pelo mundo inteiro. E nem teve tempo de se vacinar.