Se eu soubesse…

Quantas indefinições me perseguem. Quantas dúvidas me assaltam.

Ah, se eu pudesse adivinhar, com aquela bola de cristal, redonda, quanto tempo mais iria durar, a infelicidade que reina no mundo inteiro, devido a esta doença que mais e mais faz vitimas. E nos traz tanta infelicidade.

Ah!, seu eu pudesse aquilatar, quanto tempo mais teria de adiar meus sonhos, desfeitos desde quando comecei a envelhecer, deixando a infância longe, de quando era feliz e não sabia.

Se eu pudesse prever, quando iria chover, quantas vezes se equivoca a meteorologia, hoje o céu acordou limpo, dia fresco, um dia lindo, uma manhã tão risonha, neste março que atravessamos, com sinais de que a tal pandemia vai continuar a nos perseguir. Até quando.  Pergunta sem resposta. Ainda.

Se eu soubesse quantos anos, dias, horas, irei continuar por aqui, nem de longe gostaria de saber. Esta previsão deixo aos anos que me restam. Se me levarem a outro lugar, que seja neste céu azul, nuvens brancas, ao lado das pessoas que amei.

Se eu soubesse, e meu desejo prevalecesse, não sofreria tanto. Deixaria a sensibilidade que mora dentro de mim trancada num baú sem fundo, e jogaria o cadeado fora, num lugar ermo e desconhecido.

Se eu pudesse adivinhar, quantas horas iriam passar, até chegar ao fim do mundo, como isso se daria, faria tudo para impedir.

Se eu soubesse, como seria o destino dos meus netos, são três, lindos meninos, tudo faria para que o futuro lhes seja leve, como uma pluma que vagueia por este céu claro.

Se eu pudesse prever, quando iria voltar a chover, pediria ao pai do céu que não causasse tantas catástrofes, e que a chuva caísse de mansinho, fazendo os pezinhos de milho levantarem as folhinhas ao céu em sinal de agradecimento e louvor ao senhor nosso pai.

Ah!, se eu pudesse sonhar, e como eu tento, nunca desfaria o encanto que ainda brota dentro de mim, mesmo sabendo que os sonhos muitas vezes não se concretizam.

Se eu pudesse aquilatar, da mesma maneira que me permito sonhar, nunca pediria a alguém, este alguém não existe, que, a um toque de mágica, tirasse de dentro do meu eu toda a infelicidade que ainda sinto por nada poder fazer para desfazer a tristeza do coração daqueles que sofrem, a mercê da miséria que campeia por este país afora.

Ah!, se eu soubesse a hora de partir, adiaria esta partida sine die. Aliás, quando em verdade a minha hora chegar, que seja num dia trinta de fevereiro. Desejo viver a vida inteira. Desde que a saúde não me abandone.

Se eu pudesse prever, quanto tempo ainda tenho a viver, deixaria a resposta indefinidamente postergada, sem data marcada, a hora que me foi reservada, já que não podemos viver eternamente.

Se eu soubesse pra onde foram meus pais, em que lugar onde moram, pediria ao papai do céu que reservasse um lugar juntinho deles, aos seus lados, para poder abraçá-los, com a mesma vontade que ainda sinto, neste momento em que penso neles.

Ah!, são tantos os desejos que ainda me sufocam o peito, que, já que não posso listá-los todos, pelo menos gostaria de guardá-los.

Dentro de mim. No mais recôndito abrigo. E com que prazer e nostalgia me desligo, de tudo, quase tudo, menos da sensibilidade imensa que me cavouca o coração, tão sensível que não posso mesurar o quanto.

Se eu soubesse não diria o quanto. Simplesmente pretendo continuar nestas dúvidas que sempre trago comigo.

 

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