“Qual a sua graça”?

Pergunta mais sem graça esta, se feita nos dias de hoje.

Poucos jovens entenderiam o significado da coisa.

Alguém pode entender que esta pergunta se refere a fazer graça. No entanto, quem olha o dicionário, ou até mesmo consulta o Google, acaba fazendo uma viagem ao passado, naqueles tempos das saias rodadas, do bonde puxado a cavalo, dos galanteios desferidos em direção àquela moçoila casadoira, que enrubescia a um simples olhar de soslaio.

Em verdade é uma expressão que caiu em desuso. Só os mais antigos, como meu avozinho querido, meu saudoso pai talvez, na sua juventude acostumava, ao entrecuzar os olhos com minha mãe, linda mocinha, professorinha em inicio de carreira, costumava, quando, pela primeira vez a ela perguntou o nome, dirigiu-se a ela, timidamente, com esta pergunta feita numa hora certa: “qual a sua graça, linda donzela”?

Não sei se foi assim que o romance começou. Pois eu ainda não estava nesta vida, tão lindo presente que Deus me deu.

De vez em quando assim me dirijo às mocinhas de hoje.

Muitas param, desconfiadas, um tanto quanto arredias, e me olham como se fosse um velho em vias de caducar. Já outras, mais acostumadas ao nosso idioma, apenas sorriem. E me respondem com outra pergunta: “o que quer dizer qual a sua graça”?

Já eu, quase sempre apressado, com meu fone de ouvido ligado, corro adiante, pedindo que consultem o dicionário.

Um dia me contaram um causo, que passo adiante, sem dizer qual o nome do santo, apenas reconto tal e qual me disseram.

Numa cidade perto, creio que foi em Itutinga, cidade das pedras redondas, também lambida por uma represa linda, existia um senhor, galhofeiro, metido a engraçado, de nome Miguel.

Ele acostumava jogar conversa fora numa mesa de um bar.

Era um bebedor consumado e consumido pela bebida. Era levado pra casa, pelos amigos, trocando as pernas, exalando de dentro de sua boca fedida um odor etílico misturado a salsicha de má qualidade.

Ninguém suportava mais a presença de Miguel. Era um verdadeiro esvaziador de banco da praça. Sua presença nefasta era escorraçada por quase todos.

Miguel não trabalhava. Vivida das rendas de uma avó falecida fazia anos.

Solteirão convicto e convertido, quem teria coragem de se consorciar com um traste como aquele?

Mas Miguel não emendava.

Vivia correndo atrás das moças. As de vida fácil a ele não rejeitavam. Pena que na hora aga ele falhava. E não havia Viagra que consertava o mal feito. Devido a bebida, e ao cigarro, que ele fumava aos montões, desde prematuramente, aos menos de trintanos, a coisa não eriçava.

Um dia, lindo com o de hoje cedo, Miguel, pra lá de trêbado, mais que bêbado, trocava as pernas pelas ruas da cidade.

Em certo ponto, quando já se preparava para cochilar no banco daquela pracinha linda, onde mora a igreja principal, da cidade de Itutinga, Miguel passou por uma mocinha rica em formosura.

Ela tinha olhos cor de mel. Uma cinturinha que dava inveja na viola do Seu Manoel.  E um traseiro arrebitado. Tudo junto era mais lindo que um arco íris depois de um chuva de verão.

Miguel, com aquele jeitinho de cafajeste em final de carreira, acostumado a dizer besteira, dirigiu-se a moça, que mal conhecia, apenas de ver passar, com este galanteio fora de moda: “qual a sua graça? Pequena flor”?

Ela, entre injuriada e indignada, nem respondeu. Fugiu do homem como o diaba foge da cruz.

No entando Miguel a perseguiu. Mal se aguentava de pé.

Num certo ponto da avenida, daquela cidadezinha simpática, a qual meu pai amava tanto, o safado do Miguel acabou esbarrando novamente com a moça.

Já era tarde da hora. As ruas  estavam vazias.

“Qual a sua graça”? Insistiu ele.

A moça, querendo se ver livre daquele estrupício, respondeu, sem pestanejar: “Mariana. E tenho namorado, viu”!

“Não importa. Meu nome é Miguel Desgraça. E não sou ciumento”.

Não precisa dizer, que, naquele exato momento, Miguel Desgraça acabou caindo em desgraça. E foi preso por importunação  sexual.

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