De tempos idos, há tempos vencidos, tenho sentido certo cansaço, com o passar dos anos.
Uma fadiga sem explicação convincente. Algo me faz arfar, sufocar, nesta fase da minha existência.
Não sei bem a razão de tal sentimento.
Talvez seja devido à idade. Já que a mocidade há muito ficou pra trás.
Antes, mais jovem, robusto, criança ainda, brincava o dia inteiro correndo atrás de uma bola.
Já hoje, tempos se foram, qualquer esforço maior me faz sentir o coração bater apressado.
Não que sofra do coração. Minha saúde, felizmente, anda em dia. Não sou de fazer exames.
Muito menos de procurar doenças onde elas não existam.
Bem sei que o tempo passa. Com o passarinhar dos anos a vida muda dia após dia. Não mais temos vinte anos. Deixamos os trinta pra trás. De repente, não mais que num repente, quando nos deparamos com o calendário ultrapassamos os setenta. Aí nos bate uma dúvida: quantos anos mais viveremos? Melhor não saber. Melhor ainda nem tentar adivinhar. Simplesmente continuar vivendo até que a morte nos venha buscar.
Confesso estar cansado da vida que nos acena nos dias de agora. Quase não assisto ao noticiário desta mídia sedenta de fatos ruins. Prefiro filmes, romances, amenidades.
Cansei de falar na tal pandemia. Que tem levado pessoas queridas pra longe do nosso abraço.
Estou fadigado, não do trabalho. A medicina ainda me apraz. Exercitar-me a cada dia da mesma forma não me torna cansado. Faz-me falta correr pela esteira ao cair das tardes. Como me faz falta o brilho do sol que agora adentra pela minha janela.
Estou cansado de tanto ouvir falar de doenças. As pessoas, nos dias de agora, não comentam sobre outras coisas. Parece que o bem estar, a alegria, não se encontram nas prateleiras da vida.
Cansei de constatar, ao caminhar pelas ruas, como a crise se manifesta em cada esquina.
Cansei de ouvir falar em desemprego. Estou cansado de tanto escutar, nas prosas de cada dia, na tal pandemia, nas vacinas que tardam a chegar. E na felicidade que parece ter deixado de existir, neste mundo tão mudado, distinto dos velhos tempos, quando tudo era mais fácil.
Cansei de assistir, sem nada poder fazer, para amenizar o sofrimento do próximo, cada vez mais distante. De ver, constatar, até quando iremos suportar, hospitais lotados, pessoas a espera de leitos, sem saber quando serão atendidas, nesta pandemia que coloca-nos a vida em risco, por um fio, tão tênue quanto um fiapo de linha que mal passa no buraco da agulha fina.
Estou cansado desta rotina enfadonha. De ouvir sempre a mesma ladainha.
Cansei de ouvir falar em óbitos. Em estatísticas que mostram nada mais que outras coisas. Em números crescentes da tal doença da moda. Como se as outras não existissem.
Estou cansado assistir, sem nada poder fazer, para mudar o status quo.
Cansado deste isolamento recomendado. De usar estas máscaras que nos escondem o sorriso. Cansado de não poder sair às ruas sem constrangimento. De não poder frequentar o antes me atraia.
Cansei de viver como se a vida se apequenasse a cada momento. Cansei de tanto sofrimento.
Até quando? Não se sabe.
Da mesma maneira que continuo não saber até quando irei viver.
Felizmente não me canso de olhar pra dentro de mim. E não me canso de vislumbrar que o céu continua azul. Mesmo sujeito a cinzentice de dias chuvosos que de quando em vez existem.
Ainda bem que não me sinto cansado de acordar bem cedo, e deixar sair de dentro do meu eu aquela sensação gostosa de poder decantar a vida com as cores que ela tem.