Um ano inteiro parado. Educação interrompida. Sonhos desfeitos. Aquela sensação acabrunhada instalou-se no jovem coração daquele menino.
Zezinho sempre foi um aluno acima da média.
Aplicado, estudioso, apesar de ter nascido em berço humilde levava a sério todas as incumbências que lhe eram dadas.
Zezinho morava numa rocinha encantada.
Lugar ermo, escondido por detrás de uma serra, num vale verde, sempre que chovia costumava alagar tudo em volta da sua casinha modesta.
Mesmo assim, nas piores circunstâncias, Zezinho sempre sorria irradiando um bom humor que contaminava o entorno. Nas piores adversidades era uma criança sempre pronta a ajudar um amigo.
No ano passado, que Deus nos livre dele, tudo mudou naquelas paragens singelas.
Instalou-se, no mundo inteiro, uma doença até então desconhecida dos compêndios da medicina. Era uma virose que ceifava vítimas. Lotava os hospitais. E, por recomendação das autoridades todos tinham de ficar em isolamento. O uso de máscaras era obrigatório. Sair de casa uma temeridade.
Logo os efeitos da tal pandemia fizeram-se sentir pelo mundo inteiro. A crise se instalou desgraciosamente. O comércio amargou prejuízos por todas as cidades.
Um ano inteiro se passou.
As pessoas formavam filas imensas a porta dos bancos. A miséria instalou-se por todas as partes.
Opiniões eram conflitantes. Não se sabia, ao certo, qual atitude melhor a ser tomada. Se continuar de portas fechadas ou, paulatinamente, voltar a reabrir os estabelecimentos comerciais.
Zezinho, saudoso da velha escolinha, pertinho da porteira de sua morada, há um ano inteiro fechou as portas.
As professoras, bem intencionadas, gostariam de voltar a lecionar. Afinal era um ano inteiro perdido.
Um tempo imenso para quem sonha um dia se tornar um profissional de saúde, um engenheiro, um entendedor das leis, deixar de ser um João Ninguém, alguém que perambulasse pelas ruas em busca da um ganha pão qualquer.
Não era essa a intenção de Zezinho. Embora amasse a sua rocinha encantada, tinha pelas vacas verdadeira adoração, pelas crias um chamego especial, aquele menino gostaria de fazer faculdade de agronomia. Para voltar, algum dia, para tocar o negócio, fazê-lo prosperar, enricar, talvez, e conseguir dar o conforto a sua família. Que no momento atual sofria com esta doença que mais e mais fugia do controle dos governos. Que mal sabiam o que fazer, nesta situação calamitosa.
Eis que começou o mês de marco. As chuvas serenaram. O sol voltou a bilhar.
Era verão. Um verão chuvoso, quente e apetitoso, com o sabor de capim gordura, que enche os bucho das vacas, e faz o leite aumentar.
A escolinha, pertinho da porteira da casa de Zezinho, voltou a reabrir as portas.
Recebeu pintura nova. Novas carteiras. Tudo ficou uma belezura.
No primeiro dia de aula as professoras, vindas da cidade perto, não cabiam em si de tão contentes. Afinal um novo ano tinha inicio. Era preciso compensar a ausência de um ano inteiro. A vida tinha de continuar.
Aquele foi o dia mais feliz da vida do garoto Zezinho. Pra ela a continuação dos estudos era o seu ideal, desde quando acalentava aquele sonho de ser alguém.
Afinal, nunca devem coibir alguém de sonhar.
A volta às aulas, na minha modesta opinião, e tão essencial como o ar que respiramos. E, penso ainda, que não nos devem privar de respirar.