Não existem dúvidas que a coisa anda preta. Embora o dia tenha nascido de um azul borboleta.
Tem gente que vende a mulher prum vizinho e ainda leva manta. Pensando que na casa ao lado a situação está menos aflitiva. Quando dá pelo logro já é tarde. A mulher, com quem viveu a vida inteira, até que não era tão ruim. Apesar de nela faltarem os dentes da frente os detrás ajudavam na mastigação. E como comia a danada! A despensa ficava vazia. Faltava o arroz, o feijão escasseava, as verduras se perdiam na geladeira. Pois aquela geringonça não pensava em dieta. E engordava enquanto a balança quebrava.
Estamos atravessando tempos difíceis.
Falta o emprego. O dinheiro cada vez mais escasso. A renda das famílias anda perdida na inflação que galopa. Como um cavalo trotão. Nas ruas vazias o que se vê são pessoas angustiadas. A espera de quê? Que a situação se resolva? De um milagre talvez?
Cada vez mais se noticiam mortes em todas as partes do mundo. Não se falta noutra coisa. Parece que a tal pandemia virou a bola da vez. Estatísticas macabras não têm fim nem começo.
E quando as coisas irão melhorar? Perguntas sem respostas são questionadas no dia após dia.
A esperança é a última que morre. E ela, segundo fui informado, esturdia acabou de ser enterrada. Nem direito a velório a pobre teve direito. Segundo consta ela morreu de covid.
Um dia, semana passada, quando me encontrei com um amigo, pessoa assaz otimista, vivia sorrindo da desgraça alheia, de nome Clodoaldo, um pintor eletricista de mancheia, quase sem defeitos, quem não os tem?, depois de uma visita rápida a minha rocinha prejuizenta, passada adiante a mãos de quem entende de vacas e suas crias, querendo saber noticias da pandemia, de quando seria vacinado, já que eu fui, parou um cadinho defronte a minha casa.
Chovera a encher baldes a noite passada. O asfalto estava molhado. Imagine como estaria a estradinha da minha roça?
Clodoaldo pra lá se encaminhava. Ia na minha caminhonetinha prateada.
Comentamos sobre banalidades. Sobre o trabalho que escasseava. Sobre inclusive a penúria que famílias inteiras atravessavam.
Na hora da despedida, já era tarde da manhã, o céu cinzento prometia mais chuva, e ele tinha mais trabalho a fazer, Clodoaldo me questionou sobre a situação dominante.
“A coisa anda preta. Na cidade as mortes são anunciadas a cada manhã. Nos hospitais faltam vagas. A cada espirro os vírus avoam. Mais e mais pessoas infectadas são afastadas do convívio dos amigos. Até quando? Ele me inquiriu sem saber a resposta”.
Já que tinha de voltar ao consultório, a fim de atender a quem estava agendado, pelo adiantar da hora quase não parei para tentar responder ao seu questionamento.
Subi pelo elevador, e aqui cheguei. Já era quase duas horas da tarde.
Ainda escutei a sua vozinha fanha: “quando as coisa miorar ocemeconta.”
Creio que meu amigo Clodoaldo ainda vai esperar por muito tempo.
Quando tempo mais? Você me conta…