Quem ainda não sentiu aquela sensação equivalente a um punhal ensartado no peito, aquele apertume no coração, aquela indescritível emoção, olhou no espelho e percebeu lágrimas a rolarem pelo canto dos olhos, naquele dia triste e cinzento, se não sentiu, não viveu.
Nada pior que a solidão. Viver na própria companhia. Solitário, perdido dentro de si mesmo, numa cabana perdida numa imensidão vazia.
Nada pior do que amargar dias a fio sem sentir o afago carinhoso de mãos amigas. Nada olhar senão para dentro de si mesmo. Mesmo que seja num lugar paradisíaco.
De vez em quando a solidão faz falta. Poder sentir o murmúrio do silêncio. O farfalhar de asas de um pássaro errante. Nada ouvir senão os batimentos do próprio coração.
De vez em quando assim procedo.
Isolo-me aqui mesmo. Ainda é cedo.
Quando escrevo prefiro a solidão do prédio ainda vazio. Como de rotina as horas ainda são tempranas. Antes das sete. Quase uma hora antes.
A partir das oito começam a entrar os pacientes. Muitos impacientes esperam a chegada do seu médico. Por vezes ele atrasa alguns minutos. É uma espera sofrida. Pois as enfermidades fazem com que as aflições sejam ainda maiores.
Eu também não sei esperar. Chego antes do combinado. Talvez por isso sofra. Sofro devido ao excesso de sensibilidade. Sofro à mercê da minha ansiedade.
Ontem mesmo fui dar um pulinho na minha roça. Fui acompanhado de um mecânico de barcos.
Gostaria de fazer uma revisão no motor de minha embarcação furtada há anos atrás. Depois da minha casa concluída, naquela represa de águas tranquilas, ao cair da tarde, faltava-me agora navegar por aquelas águas mansas. Levaram meu barco deixando no seu rastro uma sensação de perda imensa. Não pelo valor. E sim pela intromissão ao meu lugar de repouso. Por um pescador audacioso. Que deve ter passado adiante aquele barco de tantas lembranças boas.
Lá vivem dois cães. Uma fêmea, trazida de outra represa, da raça Border Collie, que me foi dada por um singelo motivo. Ela tem a fama de comer galinhas. Por isso ela vivia presa. Num canil com todo o conforto de uma casa modesta.
O segundo, um pastor alemão, um sujeitinho brincalhão, amistoso, que só sabe latir, tem o nome de Del Rey. Ele se acostumou, desde filhote, a viver em confinamento.
De vez em quando, quanto estou presente, corremos os dois por uma estradinha curta, até a casa do meu amigo Roberto.
A Laika Rosa, a cadelinha com fama ruim, quando visito aquela casa, à beira da represa do Funil, tenta me acompanhar.
Por mais que a tente ensinar que seu lugar é ali ela se esconde dentro da minha caminhonetinha prateada, de tantos serviços prestados, ela reluta em me deixar partir.
Parto preocupado com aquela pessoinha de pelagem branca e negra. Ela fica abandonada. Naquela varanda com vista para a represa.
Seus latidos sentidos quase me fazem voltar. Ontem mesmo assim foi. Em outros dias acontecem fatos semelhantes.
Sinto na Laika Rosa uma insofismável sensação de abandono.
A mesma que brota dentro de mim em certas ocasiões.
Nos dias de hoje ela não mais vive só. Tem a companhia do meu amigo Del Rey. Eles se fazem companhia. São como a Rosa e eu.