Quantas vezes, na rua, caminhando, apressado, naquele passeio do lado observo, apalermado, um casal, que deveria ser homem e mulher, ternamente abraçados, poder-se-ia dizer apaixonados, no entanto, ao olhar com mais cuidado percebo que se trata de dois seres do mesmo sexo, homem com homem, mulher com mulher.
Nos tempos idos era um disparate constatar que duas pessoas nascidas em sexos iguais não poderiam jamais se apaixonar.
Já hoje, que tempos são estes?, tudo é permitido desde que seja por amor.
Amor, sentimento estranho, que nos atravanca o peito, faz o coração bater descompassado, nos faz sentir crianças, doces lembranças de quando era jovem ainda, e encontrei aquela menina de tranças, olhares pudicos, por quem me apaixonei, e logo depois nos desencontramos pelos caminhos tortuosos da vida.
Amor que agora não respeita o sexo. Algo complexo. Que cada vez mais é identificado como normal. Embora não pareça aos de mais idade. Como eu.
Já passei por muitos constrangimentos pela minha vida de médico.
Por aqui já passaram tantos pacientes. Cada um com suas mazelas. Doenças que não eram doenças. Simplesmente ele, ou ela, gostariam de botar pra fora suas dificuldades, na questão de sexo, ou inerentes à falta de vontade ou desejo de fazer amor.
Muitas vezes penso não ter ajudado. Bem que tentei. Embora tenham deixado meu consultório mais aliviados. Ignoro o que sobreveio depois.
As doenças de cunho sexual hoje são ainda mais prevalentes.
Secreções uretrais, feridas nos órgãos genitais, verruguinhas que apareceram do nada, todas elas reconditamente escondidas debaixo de uma fimose que deveria ter sido operada quando mais jovens, antes de começar a atividade sexual.
Daí recomendo aos jovens: procurem um especialista antes dos quinze anos. Se alguma dúvida os assalta procurem antes. O pai nem sempre está preparado para aconselhar seus filhos. Por falta de tempo o por pura ignorância. Já que na sua tenra infância estavam avexados de contar aos próprios pais o que acontecia com eles.
Um dia destes, parece que foi ontem, se não foi perdoem-me o lapso de tempo, aqui se apresentaram duas pessoas.
Eram dois jovens. Entraram porta adentro risonhamente.
Em primeiro lugar assentou-se a cadeira, defronte a minha, o mais alto. Ele media quase dois metros de altura.
Simpático, sem evidências de ser quem era, começou a desfilar os seus queixumes.
A seguir entrou o segundo. Mal falava ele.
Era claro, de meia altura.
Ele, o mais alto, disse-me que estava com uma ferida em seu órgão copulador. E que elas se alastravam desde a semana passada.
Na sua cidade recomendaram-lhe que tomasse duas injeções de Benzetacil. Estranha conduta quando não se tem o diagnóstico. No entanto as feridas apenas aumentaram.
Neste interim não tive como não devassar-lhe a intimidade. Soube, por ele mesmo, que eram namorados. Ele era o macho. Homo ativo. Segundo sua própria definição.
O segundo, com trejeitos de fêmea, apesar de tudo indicar que seria homem, mal me olhou nos olhos. Permaneceu calado. Até o final da consulta.
Depois de levá-lo a sala de exame, pude comprovar que seria uma doença ligada ao sexo. Aquele sexo sem proteção. Desenluvado, desprovido de camisinha ou condom, preservativo, conforme queiram.
Enviei ao laboratório os pedidos de exames. Estou à espera para fazer a receita.
Ao me despedir daquele casal, mais comum, nos dias de agora, fiquei em dúvida sobre quem seria quem.
O certo é que eram dois amantes. Que se respeitavam. Que se amavam. Que se queriam muito bem.
A cada um, desde que sigam sua inclinação sexual, não interessa se a chuva cai. Ou se deixa de cair. O que conta é o amor. Independe de qual sexo for.