” Quer saber? É preciso coragem e não medo. “

O assunto pandemia tem dominado o noticiário há mais de um ano. Acredito. Um cadinho mais.

Não se fala noutra coisa. Mortes, tristeza, leitos lotados, longas filas de espera, pessoas reclamando do atendimento, e a tal vacina que não dá pra todo mundo.

Parece que as outras doenças deixaram de existir.

Ruas quase desertas, máscaras encobrem a verdadeira identidade, hão de convir comigo que a qualidade de vida há muito deixou a desejar.

Pra onde foram as festas de fim de ano? Aquelas visitas aos amigos? O carnaval passou em branco. As aglomerações há muito deixaram de ser recomendados. O temor da pandemia domina o cenário conturbado destes tempos difíceis por que estamos atravessando.

Parece que não se vê a luz ao fim do túnel. Tudo parece obscuro. Cinzento, nevoento, chuviscoso.

E como tem chovido neste começo de ano. Pela televisão, hoje cedo, assisti a mais um drama em cidades da nossa região. Alagamentos, pessoas ao desabrigo, enchentes, soterramentos, somente noticias ruins.

A crise se alastra pais inteiro. Famílias inteiras passam dificuldades. Crianças ignoram quando voltam às escolas. Um prejuízo imenso em suas formações profissionais.

Não sei o que importa mais. Se a miséria que campeia aos quatro ventos. Se os preços que sobem a cada momento. Se o desemprego que bate às portas de jovens ou velhos. Ou se esta doença que não tem hora ou fim de terminar.

O fato retrato é que o país precisa mudar. Não de roupa. E sim de comportamento.

Precisamos sim de encarar esta pandemia com a coragem de um amigo da roça, por quem tenho verdadeira admiração.

Seu Joaquim, cujo único defeito, segundo a voz corrente que ecoa por aquelas bandas, é ser trabalhador, estoico e resignado, com a bondade que lhe salta aos olhos, já tendo vivido além dos oitenta anos.

Quem o vê, carpindo o mato denso, ou fazendo cercas, desde o nascer do dia ao acoitar da noite, não dá pra ele mais que cinquenta anos.

Silhueta esguia, pele lisa, olhos brilhantes, cabelos tintos tal e qual a asa da graúna, Seu Joaquim não mostra a idade que tem.

Sempre que por ele passo, no cair da tarde, encontro-o assentado a um banco de pedra dura, à porta de sua porteira.

Às cinco da tarde ele se prepara para entrar em casa. Dorme cedo. Nunca precisou da ajuda de remédios de tarja preta. Dorme como um anjinho de asas quebradas.

Levanta ao nascer do dia. Sempre de bom humor. Nunca o vi contrariado ou se queixando da vida.

Naquela tarde de sábado, era quase final de fevereiro, passei por ele.

Não tive como recusar-lhe o convite amistoso para tomar um cafezinho.

Adentramos casa adentro. Ele estava só.

Havia enviuvado de pouco. Os filhos trabalhavam na cidade perto. Naquela hora não haviam chegado.

Começamos a prosa falando de banalidades. Da chuva que não parava. Da safra de milho que foi um sucesso. Da vida boa que ele levava.

Num certo momento ele comentou sobre o nascimento de dois bezerrinhos gêmeos que de pouco haviam nascido. Era um machinho e uma feminha. Ambos nascidos de uma vaca que enchia dois baldes até a beirada.

Seu Joaquim era o retrato em preto e branco da felicidade genuína. Na sua banguelice mostrava um ar que irradiava simpatia pura.

Antes de me despedir, pois a hora já se adiantava, e eu precisava voltar à cidade, comentei, an passant, sobre a tal doença da moda.

Falei sobre as mortes que enlutavam famílias inteira. Sobre os leitos de hospitais lotados. Sobre a crise em que vivemos. Sobre a falta de dinheiros. Inclusive comentei sobre os preços que subiam tal e qual foguetes em direção às estrelas.

E, antes de ir embora ainda falei sobre medo de nos contaminarmos. Sobretudo os de mais idade.

Naquela hora, já passava das seis da tarde, o sol já se punha por detrás da serra, escutei, da boca do amigo Joaquim este dito que me fez pensar: “você quer saber? Precisamos sim ter coragem para enfrentar este momento difícil. Medo não. Ele é próprio dos covardes e dos fracos. Um dia tudo isso vai passar”.

Cheguei a casa pensando na vida que tenho levado. Felizmente a saúde ainda me faz inteiro. E não tenho motivos para preocupações maiores.

É não é que Seu Joaquim está carregado de razão?

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