Dia cinzento acordou no dia de hoje.
Céu escuro. Nuvens cinzas desaguam chuva ao despetalar da manhã.
Ao acordar abri a janela do meu quarto. Deu uma vontade imensa de não sair da cama.
Mesmo assim não titubeei. Deixei o leito, tomei um banho morno, e deixei o apartamento mais tarde que o costume.
Antes das sete aqui estou. No meu consultório, a espera do primeiro paciente do dia.
Trata-se de mais uma sexta-feira, depois do carnaval que passou em branco.
Não tem sido fácil viver nestes tempos de pandemia. Por vezes, quando assisto ao noticiário, a mídia sedenta de novidades, não tão alvissareiras como desejaria, acabo mudando de canal.
Filmes são os meus preferidos. De vez em quando um romance, outro onde impera a ação, são vistos até o final. Durmo antes das dez. Ainda plugado à televisão.
Meu avô, pai de minha saudosa mãezinha, era chamado de Rodartino Rodarte.
Não sei por influência de quem ele recebeu este nome. Do seu pai, que não conheci, oriundo de uma estaçãozinha hoje engolida pelas águas da represa do Funil. Não localidade chamada de Vigilato.
Meu avô, por parte de mãe, era uma figura assaz conhecida em nossa cidade. Tabelião, era ele quem anotava os nascimentos, bem como os casamentos, em toda a comunidade.
Seu cartório era naquela mesma rua onde moraram meus pais. Em seu lugar hoje existe um prédio, que daqui se avista, edificado por meu querido pai. Daí o nome com que o prédio foi batizado: edifício Rodartino Rodarte.
Até hoje passo por ele. Adentro por alguns instantes. E me veem às recordações o esforço hercúleo durante a sua construção. Acompanhei de perto tijolo a tijolo até o acabamento final.
Meu querido avozinho era um andarilho contumaz. Caminhava, com seu terninho azul marinho, com risca de giz, por toda a cidade.
Dizem que meu primeiro terno foi feito com o mesmo tecido. Isso está atestado numa velha fotografia que tenho ás minhas costas. Neste lugar onde escrevo.
Meu saudoso avô, admirado por toda a comarca, da Santana das Lavras do Funil, como era chamada a Lavras de antigamente, como tem sido exibido fotos antigas da minha cidade, em todas as partes do Face, poder-se-ia ser chamado de casmurro.
Conforme dita o dicionário, casmurro significa, dentre tantas sinonímias, teimoso, obstinado, cabeçudo.
Teimoso bem sei que ele era. Cabeçudo, nem tanto. Obstinado sim, o bom velhinho sempre foi. Perseguia seus objetivos com a pertinácia dos fortes e bravos. Não a braveza que apregoam os dicionários. Pois, com a gente, seus netos, ele tinha a doçura do mel.
Hoje acordei com um dia cinzento. Agora mesmo parece que a cinzentice pouco a pouco se vai.
No decorrer do dia parece que a chuva vai embora. Para voltar depois.
Agora mesmo volto os olhos em direção àquela rua. Em primeiro lugar vejo o edifício Rodartino Rodarte.
O dia amanheceu casmurro. Cinzento, nevoento, chuviscoso.
Foi neste exato momento que me lembrei do meu avô. Que, se tinha alguma coisa de casmurro, exibia, ao mesmo tempo, a doçura do seu abraço apertado, quando ele nos tinha nos braços. Com o mesmo amor de minha querida mãe.