Nem sempre acordo de bom humor.
Principalmente nestes dias cinzentos, escuros, quando a azulice do céu não se deixa ver.
Apraz-se o clarume do sol. O azul do céu. O dia que nasce brilhante. As nuvens deixam a cinzentice de lado. E a claridade aparece. Como deve estar, mais tarde, neste dia após feriado, um dia depois de um carnaval que não aconteceu.
Penso tanto, repenso o encanto, que, sem querer passo o dia matutando sobre a vida que tenho levado.
Afinal são tantos anos que quase perdi a conta.
São passados mais de setenta anos.
Tive algumas contrariedades no escorrer dos meus muitos anos.
Nem tudo que desejei conquistei.
Gostaria de viver em outro país. Onde as diferenças de classe não fossem tão marcantes. Onde a desigualdade não nos incomodasse tanto.
Num país onde o fosso social não fosse tão acachapante. Onde a diferença entre ricos e pobres não passasse de mais um delírio meu.
Às vezes fico pensando, neste meu viver conflitante, por que tanta injustiça campeia neste mundo. Cidadãos, que deveriam ser iguais, não tem a mesma oportunidade de se darem bem.
Todos nascemos neste mesmo país. Mas, entretanto, vivemos cada um no seu canto. Sem nos indignarmos com a corrupção que existe nas altas esferas, onde políticos não pagam cadeia, e, ladrões de galinha passam anos a fio por detrás das grades. Sem alguém que os defenda. Unicamente por falta de recursos. Quem não tem dinheiro amarga a penúria de um cela escura. E, quando sai retorna ao mesmo lugar de onde veio.
Por vezes fico pensando na fila enorme de desempregados. Na saúde capenga. Na miséria que campeia em cada canto do território nacional.
Às vezes fico pensando, neste país de dimensões continentais, onde deveria existir terra para todos, e a imensa maioria vive sem moradia condigna, dependurado nos morros sob o risco de desabamentos, que por vezes acontece em períodos de muita chuva, como neste verão por que estamos passando.
Por vezes lucubro, por que tantos mendigam migalhas, quando outros vivem na opulência, acumulando bens que nunca irão usar.
Às vezes imagino, graças à imensa sensibilidade que me domina, por que tanta gente boa não é reconhecida como merece, e outros, em contrapartida, vivem ocupando cargos em altas esferas, sem a devida formação que deveriam ter. Graças ao apadrinhamento de outrem.
Às vezes fico pensando, como neste dezoito de fevereiro, dia cinzento, céu acinzentado, por que a vida não oferece oportunidades iguais a todos. E a pobreza ainda continua a nos enxovalhar a dignidade.
Por vezes fico imaginando, tanto, por que crianças, que deveriam estar na escola, continuam em casa, sem a devida educação, tão importante no futuro do país que amamos tanto.
De tanto pensar, de tanto matutar com meus neurônios, será que um dia tudo isso vai mudar?
Melhor nem pensar. Continuar na indefinição talvez seja mais recomendável.
Quem sou eu para mudar o mundo? Ele vai continuar assim, até o final dos meus dias.
Já que não sou eterno. Pelo menos enquanto eu continuar a pensar, persistir na busca dos meus sonhos, tudo vai valer a pena.
Ainda pretendo viver por muitos anos. Talvez seja uma pretensão utópica.
Mesmo assim continuo a pensar…