Entende-se por fim da picada a expressão quando se quer dizer: é a trilha aberta no mato a golpes de facão, que pica árvores galhos e folhas para abrir caminho, e não, como especula Eduardo, o pico, a agulhada dos usuários de drogas injetáveis.
Já eu conheço um velho conhecido, que, na altura dos seus muitos janeiros, velho mateiro, conhecido pelas bandas da minha roça, que sempre carpe mato, roça sarandi, usando um facão de ponta rombuda, e só termina depois do mato vencido.
Seu Januário fala tudo arrevesado.
Pra ele esturdia não tem jeito de trasanteontem. É um dia atrás. Paradeiro tem cheiro de mato denso. Parança é quando o sujeito tem fogo no rabo. E não para quieto um minuto. Jiló com quiabo faz entalar a sua guela. Com U mesmo. Foda-se aqueles que tentam falar direito.
É cada expressão que com ele aprendo de preencher folhas inteiras de um anedotário. Seu Januário sempre anda descalço. E coleciona calos na planta dos pés de fazer tatu bola se enrolar de tanta vergonha de seu casco duro e o nariz perfuratriz.
Um dia atravessei o seu caminho. Estava um calorão de fazer suar em bicas até o cotovelo.
Como de sempre ele estava com seu facão em punho. Era um matagal de esconder cobras naquele meio dia com jeito de fim de tarde.
Entabulamos uma prosa boa. Eu e ele. E ninguém mais.
“Prondecevai”? Inquiriu-me ele. “Numcei”. Arremedei atrás.
Para não me indispor com ele contra disse o meu dito.
Vou pro mato. Encontrar a seriema que sumiu na braquiária.
Seu Januário riu até as orelhas de abano. E voltou o facão pro meu lado.
Com medo de tê-lo contrariado fiz a ele uma proposta. Pensei não admitir resposta malcriada.
“Dá uma chegadinha lá no consultório. O senhor precisa fazer o exame da próstata”.
Não precisa dizer que tive de fugir a canelas soltas. E me escafedi na braquiária.
Noutro dia, mais calminho, reencontrei o Seu Januário de bom humor.
Ele me olhou fundo nos olhos e assim falou: “de outra vez, de outro modis, não venha falando estrupício. Fala besteira aos seus amigos. Comigo não tem prosa mais”.
Foi quando voltei à cidade. Era o fim da nossa amizade.
Até hoje, quando me encontro com Seu Januário, mudo de passeio. Para mim aquela brincadeirinha inocente foi o fim da picada.
E evito bulir com certas pessoas. Elas podem não entender o meu palavreado.
Ontem foi dia de receber a segunda dose da vacina contra a tal virose.
Foi a segunda e a derradeira dose.
É ou não é o fim da picada?
Entendam como quiserem. O fato retrato é que, a partir de hoje, só ofereço o exame de próstata a quem me procura no consultório.