Queixar-se de nada adianta. Melhor ir de encontro ao problema. Tentar resolvê-lo. Se não for possível dar tempo ao passar do tempo.
Assim penso eu.
Antes, menino ainda, imberbe, bem nascido, quando alguma coisa me contrariava fazia birra. E meus desejos eram solucionados por meus saudosos pais.
De vez em quando me castigavam. Era posto assentado a uma cadeira dura. E só me era permitido deixar o castigo depois de tomar um copo de leite enorme. Coisa que detestava.
Com o tempo aprendi que nem sempre o que a gente gostava era do agrado de todos.
A chuva que ora caía me era ingrata. Mas, pensando no povo da roça, como era bem recebida aquela água bem vinda caída dos céus. Da mesma maneira o sol que queimava era aquilo que adoravam os amantes da praia.
Hoje chove. Amanhã o sol volta a brilhar.
A vida é composta de momentos alegres e outros nem tanto.
Aprendi, com os anos passando, a suportar todas as agruras que me são postas. Amo tanto a chuva quanto o sol que brilha no alto. Amo a exaustão tanto o sorriso de uma criança quando o choro enternecido da mãe.
Lastimar faz parte de nossa existência. Mas sempre lamuriar por qualquer motivo não deve ser coisa que agrada. De vez em quando choramos. Sorrimos, abraçamos.
Nestes tempos de pandemia a vida tem sido pesada para grande parte da população. Felizmente tenho tudo que desejaria. A saúde que me foi presenteada. A inspiração que me alaga por dentro. A oportunidade de ter nascido numa família maravilhosa.
Lastimo-me quase nunca.
Entretanto, conheço um amigo, hoje ele mora distante, que tem o hábito de lastimar quase sempre.
Eusébio tem tudo para ser feliz. No entanto ele vive a reclamar.
Reclama da chuva que cai. Do sol que nasce a cada dia. Do choro de uma criança que acorda. Até mesmo do sorriso que por vezes nasce daqueles lábios sonolentos.
Naquele dia de fevereiro, cinco, para ser preciso, o dia amanheceu com o céu cinzento. Uma aguaceira destemperada se podia ver por toda parte.
Mal se podia ver o azul do céu. O cinza predominava no entorno.
O céu, casmurro e rabugento, não mostrava nenhum indicio de que mais tarde poderia raiar o sol.
Eusébio, durante o nosso encontro, reclamava do tempo ruim. Eu apenas o escutava.
Durante o nosso colóquio, ainda bem que foi curto, o suficiente para deixá-lo entre suas lamúrias, pude ver, no alto, uma nesguinha de sol.
De repente o arco-íris se formou. Com suas cores perfiladas.
Euzébio, reclamão, como sempre, continuava a desfilar os seus queixumes.
Deixei-o para evitar o pior. Bem o sabia que tudo que é ruim dura pouco.
De repente o sol se fez. A cinzentice foi embora. Que dia maravilhoso sucedeu aquela chuva cinzenta.
Aquele homem que lastimava deixou, no seu rastro, uma névoa densa. Que logo se desfez cedendo lugar a um dia maravilhoso.
Assim deveríamos ser todos nós. De que adianta se lastimar? Nada como um dia após o outro.