O sol voltou a brilhar

Hoje faz sol. Acredito ter chovido durante a noite.

Uma cerração densa se faz na linha do horizonte. Acordei com uma sensação de calor sufocante.

Como tem feito calor neste começo de ano. Antes do amanhecer o sol já desponta. Mal se veem nuvens. Agora mesmo uma luminosidade excessiva me faz abaixar as persianas.

O clarume do sol ofusca-me a menina dos olhos. Mal enxergo o que se passa adiante.

Assim acontece a um amigo da roça.

Seu Natanael, nascido e criado naquele lugar ermo, afastado de tudo e de quase todos, salvo uma penca de galinhas poedeiras, um casal de gansos, uma porcada sempre faminta, duas dúzias de vacas baldeiras, naquele começo de fevereiro torcia para que a chuva caísse.

Todas as manhãs, quase madrugada, ele olhava pro alto, e nada de chuva dar o ar da graça.

Ele já estava dobrando a serra. Naquele começo de ano completava seus oitenta anos.

No entando parecia mais.

Cabelos tintos de neve. Pele macilenta. Sulcos profundos ladeavam o canto dos olhos.

Mesmo naquela idade avançada Seu Natanael ainda era capaz de cuidar da pequena propriedade.

Era um sitiozinho nanico. Menos de um alqueire mineiro. Se tanto.

Ele acordava cedo. Debaixo da cama havia um urinol. Era onde expelia o conteúdo da bexiga. A sua próstata inchada o fazia levantar de hora em hora. Era um jatinho mixuruca. Quase gotejante.

Felizmente a saúde não o havia abandonado por completo. Fora uma dor na cacunda. Uma perca de um dos olhos, Seu Natanael ainda enxergava bem.

Naquela manhã de fevereiro chovera um bom bocado. O suficiente para dar vida nova a sua plantação de milho. As espiguinhas nanicas estavam prestes a se embonecarem.

No entanto a chuva continuou por dias a fio. Não se via mais a luz do sol.

Nuvens cinzentas mostravam que mais água iria cair.

Uma lama viscosa quase impedia o seu caminhar.

Naquela manhã, era três de fevereiro, antes das cinco da madrugada, Seu Natanael, já bastante desiludido da vida, a mídia só noticiava noticias ruins, levantou com um estranho pressentimento.

Sonhou com dias melhores.

Que a chuva serenava. Que a pandemia tivera fim. Que o preço dos alimentos finalmente ficaria ao alcance de qualquer um. Que a vida retornaria ao seu ritmo normal. Que todos seriam felizes para sempre. Afinal.

Finalmente o sol voltou a brilhar.

E, realmente as coisas começaram a melhorar. Desde que o sol voltou a brilhar tudo mudou na vida daquele senhor.

E ele veio a falecer num dia de sol forte. A espera de novamente a chuva voltar a cair.

E que dia lindo amanheceu neste dia três. Espero, de coração a larga, que tudo volte ao normal.

É preciso ter fé nos destinos da nação brasileira. Só depende de nós. E de ninguém mais.

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