Seu Manuel, e a digníssima esposa chamada Maria, viviam às turras desde quando os conheci.
Casaram-se há tantos anos que nem se lembravam quantos.
Pelas contas do seu primeiro neto seriam quase sessenta anos.
Foi um casamento perfeito nos primeiros anos. Salvo alguns desenganos tudo corria às mil maravilhas.
Passaram a lua de mel entre beijos e abraços. Nasceu o primeiro filho, um menininho parrudo, forte com um touro robusto, antes de completar um ano daquele consórcio.
Nos primeiros anos pareciam feitos um para o outro. Dormiam agarradinhos. Pés entrelaçados. A mão do seu Manuel não se desgrudava da de sua patroa.
Eram queijo fresco e goiabada cascão. Em toda vizinhança considerados um casal perfeito.
Assim passaram os anos. Entre afagos e desenganos.
Eis que, depois de quase cinquenta anos de casados, começou a confusão.
Seu Manuel enrabichou-se por uma senhorinha alguns anos mais novinha.
“É de capim novo que eu preciso.” Gabava-se o falso garanhão. Mal sabiam eles que Seu Manuel tomava aquele comprimidinho azul. Era a sua salvação.
Foi naquele começo de fevereiro, em plena pandemia, quando chegou a hora de Seu Manuel se vacinar, encontrei-me com ele.
Ele estava acompanhado da rapariguinha. Logo percebi que era uma mulher de vida fácil. Uma oportunista que só pensava em se dar bem.
Trocamos algumas palavrinhas. Estava um dia lindo.
Seu Manuel, assim que me aproximei, tentou esconder a tal pessoa. Foi uma tentativa inglória.
Acabamos sendo apresentados. Seu nome era Juliana. Uma fulana desconhecida na comunidade.
Depois de receber a vacina Seu Manuel, um tanto quanto avexado, acabou confessando a mim, seu amigo velho, as agruras por que estava passando.
“Dona Maria não é mais a mesma. Reclama de tudo e de todos. Acorda pela manhã se queixando de dor nas juntas. A noite ela perde o sono. Não sei o que fazer para satisfazer-lhe os caprichos. Ela virou uma velha rabugenta. Quase caduca. Se continuar assim acabou saindo de casa. Antes só do que mal acompanhado”.
Neste exato momento olhei de soslaio em direção à senhorinha que o acompanhava.
Ela, além de zaroia faltava alguns dentes da parte de cima. Ela mais parecia uma seriema em final de carreira. Era desapetrechada de qualquer indicio de formosura.
A bunda despencou até as canelas. E seu sorriso lembrava uma maritaca grasnando. Era um verdadeiro estrupício de se jogar na lata de lixo.
Despedi-me de Seu Manuel desejando-lhe um ótimo mês. Com aquilo junto seria muito difícil.
Antes da despedida ainda escutei, com estes ouvidos moucos, esta frase que passo adiante: “a inconha da dona Maria não me deixa em paz. Um dia vou-me ver livre dela. Você vai ver”.
Foi então que mirei os olhos para a tal Juliana. Seu Manuel deve estar sofrendo da vista. A sua inconha é muito melhor do que a fulaninha. O que o tempo faz com a gente. Acaba nos deixando inconsequentes.