Tenho pressa

Vivo contando as horas. Apressado quase sempre.

Acordo ao nascer do dia. Com a lua ainda sorrindo lá em cima.

Nem bem o dia começa e lá vou eu em direção ao consultório. O relógio mostra quase seis horas. Têm dias mais, outros menos.

Assim tem sido meu modus vivendis. Desde criança me considero um apressado.

Chego antes do combinado. Esperar nunca foi uma virtude minha.

Por isso sofro.

Causa-me ansiedade ficar na cama além daquelas horas antes citadas. O leito me cospe bem cedo.

Hoje em dia, já jubilado dos empregos públicos, nunca da medicina, embora não tenha compromissos antes das oito, já estou aqui, neste sétimo andar, a olhar da janela, e que visão linda ela esparrama, parte do meu passado ela enseja, a rua onde cresci, o clube por onde sempre passo, o velho hospital onde comecei nesta linda cidade, que considero minha embora aqui não tenha nascido.

A pressa me consome desde quando menino ainda.

Naqueles idos anos, brincando de patinete, de carrinho de rolimã, sempre chegava à frente dos meus coleguinhas. Era eu o mais veloz de todos eles.

Depois de crescidinho, não tanto, apostava corrida com aqueles da minha idade. Não digo que ganhava sempre. Mas a velocidade até hoje me inebria.

Fiz-me adulto sempre com pressa. Envelheci sempre apressado.

Até hoje, adentrado aos muitos anos, a sofreguidão me consome.

A ansiedade é uma enfermidade voraz sobretudo nestes tempos de pandemia.

As doenças de cunho emocional têm se sobreposto as demais.

Não se fala noutra coisa. Até parece que o câncer, as doenças inflamatórias, a próstata não mais existe. Todos se preocupam apenas com a tal virose.

Ainda tenho pressa.

Não vejo a hora de deixarmos as máscaras apenas para o carnaval.

Tenho pressa de voltarmos a nos confraternizar. De podermos sair às ruas com os rostos descobertos.

Tenho pressa de voltar aos velhos tempos. Quando se podia caminhar livremente. Frequentarmos os lugares de sempre. Sem o risco de nos contaminarmos.

Tenho pressa das correrias pelas estradas. Como fazer o mesmo com a face escondida dentro de máscaras?

Assalta-me a vontade de poder fazer visitas sem constrangimento. Nos dias de hoje somos presenças perigosas na casa dos amigos.

Tenho uma pressa enorme de poder ir aos hospitais sem o receio de ali ficar confinados como bois de engorda. De rever outras doenças. Parece que a tal endemia não tem hora de terminar.

Tenho pressa de poder retornar ao velho clube sem precisar agendar a hora. De frequentar a piscina nestes dias de calor intenso.

Sempre tive pressa. Ainda mais agora que não sei quanto tempo que me resta.

 

 

 

 

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