Mais parece uma eternidade

Nem parece que foi ontem.

Passam os anos e a gente não se dá conta de quantos anos se passaram.

Ontem tínhamos vinte anos. No despertar do dia de hoje esta conta mal cabe em todos os dedos das duas mãos.

De repente a infância nos deixa. A idade cavalga-nos às costas. E quando a gente se olha no espelho assusta-nos os cabelos brancos, as rugas que passarinham-nos pelo canto dos olhos, aquele olhar inexpressivo, próprio da velhice que nos cerca.

Não há como deter os anos. Com eles aparecem os desenganos.

As inoportunas enfermidades contabilizam-se a cada dia que passa.

Dizem que a velhice é uma fábrica de monstros. Contradigo a esta afirmação. Ser velho é poder sorrir frente às adversidades. É poder caminhar sem se importar com o que vem pela frente. É poder passar horas e horas brincando com nossos netinhos. Pena que não se pode prever até quando.

Ontem completamos quarenta e dois anos de casados. Eu e ela. Minha adorável esposa.

Parece que foi ontem que nos conhecemos. Foi no rela do jardim. Eu pra lá. Ela no sentido inverso. Ainda não sabia fazer versos. Não era um poeta como ainda não sou.

Logo nos aproximamos. Começamos um namoro que durou mais de dez anos.

A seguir, devido às contingências da profissão que abracei, por uma viagem ao exterior, apartamo-nos.

De volta a minha terra, não onde nasci, mas de onde me considero filho, já médico especialista em urologia, novamente nos unimos. E nunca mais nos separamos.

Ela é minha companheira durante quase uma vida inteiro. Não digo que desavenças não existam entre nós. De vez em quando querelamos.

Mas são briguinhas que não duram mais do que as chuvas de verão.

Temos gênios conflitantes. Mas, dizem que os desiguais não se repelem. Somos imãs que se atraem frente às dificuldades da vida. Ambos amamos acordar cedo. O trabalho é nossa predestinação.

Eu e ela nos completamos. Ela se dá bem entre os numerais. Já eu prefiro as letras.

Três anos nos separam. Dizem, em tom de brincadeira, que ela mais se parece uma filha minha. Talvez tenham razão.

Mas sou eu que a considero como minha saudosa mãe.

O que seria de mim, desafortunado, se ela não ficasse a cargo das minhas finanças. Eu apenas assino cheques. Ela paga as contas com uma pontualidade britânica.

Ela costura e corta com mãos de fada. Eu apenas observo, admirado, sua vocação pelas atividades manuais.

Ontem mesmo, debaixo de um sol de fritar miolos, ela plantava mudas de flores no canteiro do nosso jardim. Foram horas e horas de uma labuta constante. Ao final da tarde estávamos exaustos. Não fosse um amigo pintor, não daríamos conta de tantos atropelos. Graças ao Clodoaldo nossa casa beira lago não estaria quase terminada. Ainda faltam alguns detalhes. Poucos. Resumidamente poucos.

Comemoramos, sem festas ou aglomerações, apenas eu e ela, quarenta e dois anos de casados. Quase uma eternidade. Quase uma vida inteira.

Parece que foi ontem que nos conhecemos no rela do jardim. Eu pra cá. Ela ao revés.

Se pudesse escolher outra mulher para passar o resto da minha vida não seria outra.

A minha Rosa. Com ou sem espinhos, ela faz parte de mim desde há muitos anos atrás.

Espero ainda estarmos juntos por outros tantos anos.

E que nossa eternidade dure para sempre.

Afinal ainda nos sentimos jovens o bastante para recomeçar tudo de novo.

Eu pra cá. Ela no sentido inverso. Como naquele rela do jardim.

 

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