Sequela maior da Covid – 19

Pela minha experiência em saúde pública, que se arrasta por mais de trinta e cinco anos, afastado recentemente, não da urologia, minha especialidade, durante os atendimentos naquela unidade de saúde, pude comprovar, que quase a totalidade das pessoas que procuram atendimento ali comparecem por apresentar doenças de fundo emocional.

Os medicamentos de tarja preta esgotam o receituário.

São antidepressivos, ansiolíticos, fármacos que não só causam dependência, como, na maior parte das vezes, não resolvem o âmago da questão.

Aquelas pessoinhas simpáticas, quando em busca da receita, me olham nos olhos, inquiridores, e por vezes me indagam: “doutor, será que um dia irei melhorar”. Me verei livre das receitas?

A resposta não a tenho na ponta da língua. Por não ser especialista em psiquiatria me abstenho de responder. Mas uma coisa me incomoda. A psiquiatria é uma das especialidades mais difíceis da medicina. São pacientes crônicos. Que se tornam dependente não apenas do médico, como, da mesma maneira, de carinho e atenção.

Estamos passando por um período complicado. Sem hora e dia de terminar.

O tal coronavirus veio, parece, para ficar.

Estamos à mercê de uma tal vacina. Tomara ela seja eficiente.

Bem sei, por informação de terceiros, que a tal doença pode ser contida em pouco tempo. Simula uma gripezinha sem maiores consequências. Quase não deixa sequelas. Se tratada em tempo hábil.

No entanto, quando o paciente tem outras comorbidades, pode deixar sequelas irreversíveis.

Na minha vida pregressa, quando me chega um paciente num postinho de saúde qualquer, e me pede, encarecidamente, que eu faça uma receita de um fármaco especifico, para uma patologia de cunho emocional, bem sei que ele retorna, tempos depois. Com o mesmo pedido. Por vezes tentando mudar o medicamento. Mas a doença é a mesma. Incurável patologia. Bem o sabe dizer a psiquiatria.

Noutro dia, foi há uma semana atrás, percebi, na sala de espera, um paciente esfregando as mãos avidamente. Não havia álcool gel que lhe bastasse. Seus olhos inspiravam ansiedade.

Ele adentrou a consulta por outro motivo banal. Queixava-se de inadequação sexual.

Era jovem o mancebo. Pela sua identidade não contava com mais de dezoito anos.

Depois da conversa, de escutá-lo por alguns minutos, de comprovar que aquela queixa não era nada mais que emocional, despedimo-nos como amigos. Aquele rapazola precisava ser ouvido. Nada mais.

Um dia me perguntaram. Foi uma pergunta desferida na rua.

O senhor sabe qual o complicação maior da covid -19?

Na hora me reportei às unidades de saúde publica. De onde havia saído recentemente.

Bem o sabia, por ouvir falar, que pode deixar sequelas tanto na árvore respiratória. Quanto nos rins e no cérebro. Pode deixar fibroses no interstício pulmonar. O cansaço, a fadiga crônica, invariavelmente fica. A fraqueza muscular é outra complicação da doença. Que pode ficar para sempre. Alterações do apetite e do humor. Até mesmo a perda do paladar.

Parei por aí. Para não me alongar tanto.

Antes de partir, espero ter respondido a maior parte das questões, lembrei-me daquele jovem consultante. O qual esfregava as mãos ansiosamente.

Ele não teve covid. Era um simples caso de insatisfação sexual.

Quero acrescentar, na minha experiência de não especialista, que uma das sequelas mais prevalentes na Corona virose, se trata, simplesmente, da tal ansiedade. Essa morbidade deve ser levada a sério. Não com tanto  temor e receio. Ela um dia desaparece. Como poeira ao vento.

 

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