Assombra-me

Confesso nunca ter visto a cidade tão vazia quanto neste começo do dia.

O mês de novembro parece nem ter começado.

A esta hora da manhã, dia lindo, fresco, parece ter chovido a noite passada, mal se veem pessoas trafegando pelas ruas.

O semáforo oscila entre o verde e vermelho quase sem carros a orientar.

O prédio está entregue a ele mesmo. Apenas o porteiro, madrugão, como eu, deixa o banheiro, com olhos semifechados, escovando os dentes, e me diz um amanhecido bom dia.

E eu adentro a minha sala. Penso nos anos que tenho vivido.

Antes me amedrontava com quase tudo. Um simples ladrar de cães me intimidava. Sonhava com fantasmas inexistentes. Perambulava pela noite escura temeroso das bruxas as quais diziam engolir meninos inocentes.

Tinha receio de enfrentar os desafetos. Na escola era tido como uma criança tímida. Encabulava-me quase sempre que tinha sobre os olhos aquela menina linda, cabelos cacheados, bastante cortejada por todos os coleguinhas.

Assim cresci. Assombrado com o que a vida me reservaria.

Uma vez feito adulto, faz tantos anos, metia-me medo o que seria de mim.

De repente mudei meus temores. Passei a assombrar-me com as doenças. Já que meu saudoso pai veio a falecer de uma insidiosa enfermidade. A tal doença de Alzheimer. Que o levou ao leito, não sem antes fazê-lo sofrer e a todos nós.

Já, nos dias de agora, prestes a completar mais um ano de vida, passei a não mais assombrar-me com quase nada.

Não mais tenho medo do que me espera. Em cada encruzilhada da vida.

Já passei por tantas coisas. Enfrentei galhardamente procelas e tempestades. Já passei por secas que acabaram por secar meus olhos. Felizmente ainda tenho saúde a dar aos outros. A tal doença que acometeu meu pai espero não fazer o mesmo comigo.

Já não mais me assombro com quase nada. Tenho quase tudo que desejaria possuir.

Confesso, nestes quase setenta e um anos de vida, ter me intimidado com algumas coisinhas sem importância. Agora elas foram deixadas pra trás. Fazem parte de um passado remoto.

Os medos não mais fazem parte do meu eu.

Não que tenha me tornado um senhor corajoso. Já enfrentei medos e os derrotei.

Agora, neste dia maravilhoso, antes das sete da manhã, ao olhar pro céu, e vê-lo azul, percebi que não tenho motivos para assombrar-me com absolutamente nada.

Talvez tenha medo sim. Da falta de responsabilidade dos que dirigem o nosso país. Das desigualdades sociais. Da crise que impera nestes tempos difíceis que estamos atravessando. Da falta de solidariedade. Da miséria que campeia em todo cenário nacional.

Assombra-me ainda, nesta fase da vida, prestes a completar mais um ano, qual será o desfecho desta pandemia. Teria ela um final próximo? Ou ainda vai se arrastar por muito tempo?

Antes me assombrava com quase tudo. Já hoje quase nada me mete medo.

Tomara ainda viva por muito tempo. Para acompanhar o desenrolar dos fatos. Que eles se tornem notícias mais alvissareiras. Só o tempo vai dizer.

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