Não poderia haver melhor presente de aniversário

O tempo passa. As datas de aniversário continuam as mesmas.  E os presentes, com o desenrolar dos anos, cada vez mais se transformam.

Quando menino ganhei, creio que aos cinco anos, um lindo caminhãozinho de bombeiro.

Era vermelho. De bom tamanho. Com uma escada na parte lateral. E uma mangueira em muito parecida àquela que os bombeiros de verdade usam para apagar incêndios.

Cinco anos depois, assim que completei meus dez anos, moleque ainda, morando naquela casa que hoje está vazia, posta à venda, já que minha querida irmã Rosinha se mudou, para bem perto, recebi, como presente de aniversário, uma linda bicicleta amarelinha, na qual aprendi a me equilibrar, depois de muitos tombos e galos na testa.

Com o tempo passando os presentes continuaram se transformando.

Não mais criança passei a ganhar livros. Meu pai, consciente da importância de uma boa leitura, já que sua biblioteca era recheada de livros, passou a me presentear com exemplares que até hoje tenho. Muitos deles não foram lidos. No momento atual, assim que me tornei um quase ancião, com alma de menino, mais escrevo do que leio. Este é um conselho que não gostaria de passar às futuras gerações.

O tempo passou mais depressa que imaginava. Não existe maneira de frear o tempo.

As datas de aniversário se sucedem. E eu continuo, cada vez mais, a caminhar no tempo.

Saltei alguns anos mais.

Neste próximo dezembro, precisamente dia sete, colecionarei mais uma data no meu calendário dos anos. Há anos não mais tenho ganhado presentes. Prefiro dá-los que recebê-los. Tenho quase tudo. Nada me falta. Já que o maior presente que gostaria de receber é uma amizade genuína. O afago dos que me são caros. Um beijo dado na minha face. De algum dos meus netinhos. Qualquer dos três.

Como disse, no próximo dezembro que se avizinha, ultrapassarei setenta anos. Ainda me sinto como se fosse um menino. Uma criança esperta. Que adorava o português. E não tinha tanta afeição pelos números.

Há tempos tenho tentado concretizar mais um sonho. Tenho uma rocinha prejuizenta na zona rural de Ijaci. Tentei, por muitos anos, entender o porquê de a vaca ser preta e o leite sair branquinho de suas tetas. Já levei manta por muitas vezes. Aprendi muito pouco com a boa gente da roça. Sei que eles trabalham de sol ao deitar da noite. Aprendi que a vaca dá cio e pare escondida no mato. Mas, de um certo tempo pra cá, dei por mim que leite só dá lucro aos olhos do dono. E acabei arrendando a minha roça a quem entende de vacas e sabe plantar na hora certa.

Não me arrependi por isso.

Mas, como amo roça, e me dou bem com sua gente, reservei um pedacinho dela, à beira da represa do Funil.

Ali construí uma outra morada. E, de um ano pra cá, um outro espaço, uma área gourmet, uma piscininha de águas mornas onde pudesse me acalentar.

Este espaço esta quase pronto. Faltam alguns detalhes. Uma pintura, uma escadaria, um jardim.

No dia sete próximo assoprarei mais uma velinha. Quase não caberão no bolo.

Ontem, à noite, recebi uma mensagem no meu celular. Era de  um pintor, meu amigo. Estava dormindo quando ela chegou. E ela dizia assim: “no que depender de mim nós vamos comemorar seu niver lá na roça. Não fui para Boa Esperança para te dizer isso”.

Hoje, cedo, ao ler a sua mensagem agradeci. Até no presente momento acredito, que dos presentes que recebi, esta prova de amizade talvez seja a que mais me tenha gratificado. De todos os presentes que ganhei até na data de agora, se pudesse escolher, talvez seja a amizade do Clodoaldo.

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