Alegria do Zé Mané

Que dia lindo amanheceu naquele dia, quase finada primavera.

Não chovia há tempos. Tudo fedia a poeira. A pastaria ressequida fazia doer o coração das vacas.

Desde há exatos cinco meses nada de a chuva cair. Era novembro em seu começo. Nem as jabuticabas deram o ar da graça, permaneciam flores em botão, naquele ano ingrato, tudo de ruim acontecia, inclusive uma tal pandemia, mais parecia uma maldição dos céus.

Era templo de plantio. Zé acordou cedo naquele dia. Na terra arada de véspera lançou dez sacos de sementinhas de milho. Na esperança de uma colheita farta.

Orou, contrito, ao Deus dos homens da roça, suplicou pela chuva que naquele ano teimava em não cair. Implorou a todos os santos. Inclusive a uma tal santinha dos desata nós. A qual diziam ser milagrosa. Acendeu duas velas numa encruzilhada. E esperou, de joelhos, a tão esperada chegada da chuva.

Um mês inteiro se passou. Novembro fechou os olhos.  Adentrou dezembro.

E nada de a chuva despencar do alto. O céu continuava azul. O sol, com seu sorriso amarelo, sorria bem no alto. Era um solaço de esquentar miolos. Nenhuminha nuvem a indicar a presença de chuva.

Naquele ano, que quase chegava ao fim, nada de bom acontecia. Eram apenas noticias ruins.

A tal pandemia alastrava-se cada vez mais. No hemisfério norte uma segunda onda continuava a fazer vítimas em todos os continentes. Eram mortes anunciadas pela mídia sedenta de sangue. Um novo presidente foi eleito no país mais rico do mundo.

Naquela manhã de dezembro, véspera de seu aniversário, que cairia num dia sete, Zé completava cinquenta anos, ao despertar, depois de uma noite em claro, ao olhar pela janela, viu, com seus olhos incrédulos, uma chuvica mansa caindo devagar.

Quase não acreditou no que seus olhos viam. Agradeceu ao Deus da chuva.  E deixou a casa depois de um cafezinho magro.

Depois de ordenhar as vacas foi ver como estava a roça de milho. Os pezinhos de milho nasciam sorridentes. Um deles inclusive, de folhinhas pro alto, sorria com suas folhinhas molhadas.

Zé Mané, da Silva Qualquer, naquela manhã de dezembro, sorria mostrando a sua banguelice banguela.

No dia seguinte, sete de dezembro, era dia de seu aniversário. Não haveria festas. Nem ao menos celebrações.

No entanto, que presente melhor poderia receber? Aquela chuva benfazeja era em verdade a coroação de sua felicidade maior.

Foi quando o encontrei a carpir sua roça de milho. Embasbacado de contente. Sorrindo de orelha a orelha.

A alegria do Zé Mané acabou por espantar a minha tristeza.

 

 

 

 

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