” Pra quê tudo isso?”

A vida inteira tenho corrido tanto.

Primeiro para deixar o berço. Aprender a caminhar pelas próprias pernas.

A seguir, depois de levar tombos, colecionar galos na testa, falar foi outra maneira que aprendi pra me comunicar.

Falava uma linguagem quase ininteligível. Custavam a entender o meu linguajar.

Quando não entendiam o que falava fazia birra. E chorava, era aquela a única maneira de manifestar o meu desagrado.

Uma vez crescido, nem tanto, corria para a escola, para aprender o babá.

Naquela idade, antes dos cinco anos, quando comecei a me alfabetizar, caí de amores por uma menina. E ela corria tanto que não conseguia alcançá-la.

O tempo corria. E eu corria atrás. Corria não sei pra quê. Já que os anos não me permitiam um intervalo para o descanso. A pressa me consumia.

Aos quase dezoito anos, completos, corria pensando no que seria num futuro que se avizinhava. A profissão ainda era uma incógnita. Precisava eleger qual carreira iria seguir. Já que o tempo urgia. Furibundo. Apressado. E eu corria tanto que mal tinha tempo de pensar em mim.

Aos vinte e pouco anos acabei me decidindo pela medicina. Lego engano. A correria não cessava nunca. Uma vez graduado passei a correr atrás de uma especialidade. E não parei de correr até nos dias de hoje.

Uma vez médico feito, sonhos ainda não concretizados, corria de hospital em hospital. Eram plantões intermináveis. Noites mal dormidas. Até quando pensei em parar a correria nesta cidade. A qual considero minha embora não tenha nascido aqui.

Mais uma vez não fui capaz de conter o ímpeto. Continuei a correr da vida. A intenção era constituir família. Já que a outra, a que me deu a felicidade de nascer, um dia a perdi.

Aos mais de trintanos nasceu meu primeiro filho. Cinco anos depois nasceu uma menina linda. Que se parece muito comigo. Parei por aí. E eles me deram netos. São três meninos. Entre os quais me rejuvenesço. Volto no tempo. E me alegro por isso.

Ao vê-los correr, com aqueles passinhos titubeantes, me lembro de mim menino. Fazendo travessuras.  Sendo repreendido por meus pais.

Já hoje, quase ultrapassando os setenta, ainda corro menos. Penso já ter chegado à idade de correr no sentido inverso. Pena que não se pode correr pra trás.

Já corri tanto da vida, que um dia penso em parar. Não parar por completo. Meu saudoso pai já dizia: “o ócio é o começo do fim”.

Num tempo que se vai ao longe, penso ter sido há um ano, ao correr pelas estradas, rumo a minha rocinha encantada, numa curva do caminho, ainda longe do meu destino final, parei um cadinho junto a um senhor, velho amigo.

Seu Zé Antônio estava assentado, calmamente, a uma pedra de mármore dura, a beira do caminho.

E ele interpelou-me mansamente. Com aquele jeitão indolente.

“Pra que correr tanto? Se a gente não chega a lugar nenhum”?

Simplesmente parei de correr. Agora corro contra o tempo. Quem sabe por quantos anos mais…

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