Seria este o meu fim?

Quantas e quantas vezes pensei no ocaso.

No pôr do sol. No despertar do dia. No cair da noite.

Da mesma maneira, nesta altura da minha existência, afinal são mais de setenta anos, bem vividos, por vezes penso, imagino, quantos anos mais viverei.

Meu pai chegou aos setenta e sete. Minha saudosa mãe um cadinho mais.

Bem sei que se deve viver o presente. Vivê-lo sofregamente. Sorvendo a cada dia gota a gota. Como se fosse uma chuva mansa tatuando o vidro da janela.

Tenho boas lembranças do meu passado. A maior parte dele vivendo naquela rua que daqui se avista pelos fundos.

No presente momento a mesma casa está vazia. Mas recheada de recordações ternas. Do meu tempo de criança. Saudosa infância. Cujos anos não voltam mais.

Hoje vivo feliz ao lado de meus netos. Hoje são três. Encantadores meninos. Ativos e espertinhos. Sorridentes, birrentos, quando alguma coisa os contraria.

Meus filhos me presentearam com três netinhos. Todos machinhos. Seria demais ver uma menininha de fita no cabelo. Assentadinha no meu colo. A ouvir historinhas nascidas da minha imaginação fértil.

Já cultivei por demais o passado. Dele não consigo me desvencilhar. Vivo o presente intensamente. Pratico esportes. Da academia não se desgrudo. Estou em plena forma. Não de um barril obtuso. E sim de um atleta, meio poeta, que corre atrás de não sei o quê.

Bem sei que o futuro é uma incógnita. E não pretendo adivinhar o que há de ser de mim. Oxalá viva alguns anos mais. Desde que a saúde não me abandone. E continuei assim. Com a inspiração a me cavoucar por dentro. Afinal penso ser a literatura a mola propulsora que me mantém vivo.

Ao final do ano ultrapasso os setenta. Pretendo chegar aos noventa. Quiçá aos cem?

Só Deus saberá me responder. Vivo o presente inconsequentemente.

Sem pensar no que vai ser amanhã.

Tomara que continue a embalar meus netinhos. Na hora daquele soninho gostoso possa contemplá-los como se fossem anjinhos. Será que poderei acompanhá-los por mais tempo ainda? Vê-los emancipados? Feitos gente compromissada com o trabalho. Médicos, engenheiros, escritores talvez…

Não sei o que me reserva o futuro. Onde passarei meus derradeiros dias.

Não desejo nunca que seja num leito de hospital. Cheio de sondas, stomas, cateteres, com a respiração assistida, inerme, sem ao menos entender o que se passa no entorno.

Acredito que foi ontem. A hora do almoço.

Subi um lance de escadas, passo a passo, até chegar ao apartamento onde moram dois dos meus netos.

Dois deles estavam almoçando. O Theo, o mais velho, e o Dom, o mais jovenzinho dos três.

Theo, aquele lourinho de cabelos encaracolados, é ruim de boca. Já o Dom, é um garfinho respeitável. Come tanto quanto  seu avô.

Dom, assim que termina de comer, boceja, pois é hora de dormir.

Quando ali cheguei Dom me recebeu com cara de poucos amigos.

Estava com sono. Queria a chupeta. Não respondeu ao meu carinho.

Ao revés. Fez beicinho e me enxotou dali dizendo: “vovô, volte para sua casa. Vai pra casa do vovô”.

A partir de então pude vislumbrar onde irei passar o resto dos meus dias.

Seria em verdade na Casa do Vovô?

Nada contra. Muito pelo contrário.

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