O que esperar do futuro? O que nos reserva o porvir?
São indefinições que nos amarguram. Por vezes nos tiram o sono.
Mas, pensando bem, acabei concluindo, com o passarinhar dos anos, ser melhor viver o dia de hoje. O presente é que conta. O passado deve ser lembrado. Sempre. No entanto, vaticinar o futuro, predizer o que vai pela frente, em nada vai adiantar. Já que não temos, ainda, bola de cristal. Nem ao menos um foguete que nos leve ao futuro. Ou alguma espaçonave inteligente. Dirigida por um cientista imaginário. Que ainda não nasceu.
Um dia destes, foi no mês passado, ao aqui chegar, neste meu refúgio, onde deixo levitar meus pensamentos, encontrei um senhor à espera.
Não havia nenhuma consulta agendada para antes das oito horas. A minha secretaria só chega a partir desta hora.
Abri a porta. Cumprimentei aquele senhor. Pra mim desconhecido. Decerto ele esperava outro médico. Quem sabe da sala ao lado. Ou outro qualquer.
Comecei a escrever. Outro texto nasceria naquele momento. Não me recordo qual seria. Um dos tantos que meu computador guarda num arquivo especial.
Antes do seu começo, aquele senhor, de barbas e cabelos tintos pelos anos, interpelou-me afavelmente.
Fez-me ver que ele gostaria de se consultar comigo mesmo. Tinha pressa. Não lhe foi possível agendar a consulta. Daí a sua espera. Ele ali estava desde a mais tenra madrugada. Desde quando o prédio abriu as portas.
Pedi que ele esperasse às oito horas. Era ainda quase sete.
Entretanto, aquele senhor, de barbas brancas, cabelos tintos em quase neve, mais parecia o Papai Noel, docilmente me suplicou que o atendesse naquela hora. Mesmo sem a presença da minha secretária.
Não tive como recusar-lhe o apelo. Pelo seu jeito sofrido, em verdade me parecia algo de relevante urgência, pedi-lhe que entrasse em minha sala.
Ele assentou-se defronte ao meu assento. Era mais ou menos seis e meia. Dia escuro. Mais tarde por certo iria chover.
“Doutor. Perdoe-me a insistência. Venho de longe. O senhor foi indicado por um parente. No dia de amanhã completo oitenta e um anos de vida. Uma vida inteira dedicada ao trabalho. Aposentei-me com setenta anos. A partir de então começou meu sofrimento”.
Deixei-o continuar sem fazer nenhuma pergunta.
E ele continuou.
“A partir dos setenta foi-me diagnosticado um câncer na próstata. Embora não tivesse sintomas, durante um simples exame de sangue, o tal PSA, o médico me alertou que ele estava aumentado. Pelo toque havia uma área suspeita. Endurecida, nodulosa. Foi feito uma biópsia guiada pelo ultrassom. E foi confirmado o diagnóstico. Felizmente a patologia estava em estágio inicial. Fui operado, numa cidade grande. O especialista nem tempo teve de entrar em detalhes. Simplesmente me deu alta. E me encaminhou a um oncologista. A partir de então tenho sofrido dores intensas. A minha coluna é a que mais sofre. Quase não posso andar. Ao raio xis foi comprovado que se tratava de metástases do câncer original. Por favor, doutor, gostaria de saber a sua opinião. A minha doença ainda tem cura?”
A consulta durou quase uma hora inteira. Examinei-o por completo. Em verdade o câncer já tomara grande parte do seu corpo. Os ossos mostravam sinais de acometimento. Os dois pulmões já estavam afetados. Felizmente ele conseguia urinar, por uma sonda colocada em sua bexiga. Era um stoma definitivo.
Em verdade nada podia fazer, a não se atenuar-lhe o sofrimento. Nada mais restava a fazer a não ser esperar o inevitável.
Um mês depois soube notícias dele. Ele foi sepultado no dia de finados.
Daí a importância do exame de próstata. A partir dos quarenta e cinco anos. Ou antes, caso tiver história na família desta doença que pode ser curável se diagnosticada precocemente.