Há tempos tenho visto um amontoado de poeira fina pertinho de onde escrevo.
Trata-se de uma estante velha. A que guarda meus livros, um amontoado de retratos, no meio um quadro de uma marina, duas portas de cada lado, e, na parte de baixo, quatro repartições amplas, sempre fechadas, há tempos não tenho visto o que se esconde dentro delas.
Quando aqui chego, antes das sete da manhã, percebo um motinho de poeira fina, indicio de que algum bichinho tem se alimentado da madeira da minha estante.
Tenho feito quase tudo para eliminar esta poeirinha. Tem sido debaldes as minhas tentativas. Sempre o caruncho volta. Apesar do inseticida que tenho aplicado no cerne daquela madeira, por certo ambiente favorável pra a proliferação daqueles indesejáveis insetos. Se é que devemos chamá-los assim.
Caruncho é sinal de envelhecimento. Indício inequívoco de que estamos ficando velhos.
Madeira nova não dá caruncho. De boa qualidade da mesma forma não oferece perigo ao carunchar dos anos.
Um tempo antes do que estamos vivendo apareceu, na minha oficina de trabalho, um senhor, vindo de longe, mostrando na face um emaranhado de rugas, pés de galinha, olheiras profundas, sinais indeléveis da idade avançada.
Ele aqui apareceu vindo do nada. Estava só. Do lado de fora da minha sala escutei a sua conversa, palavras soltas, quase balbuciantes.
“Por favor, minha senhora.” Assim ele se apresentou a minha secretária.
“Gostaria de me consultar com o doutor. Não marquei consulta. Espero que ele me atenda. Estou me sentindo mal. Quanto custa a consulta?”
De pronto ele pagou a importância devida. Não regateou e muito menos pechinchou.
Entrou a passos trôpegos. Assentou-se à cadeira defronte a minha. E falou num tom quase inaudível.
“Doutor. Vivo só. Não tenho mais família. Perdi, durante grande parte de minha vida, filhos, netos, parentes. Não digo que não curto a minha solidão. Vivo confortavelmente numa enorme residência. Tenho uma aposentadoria suficiente para ter quase tudo. Nada me falta. Talvez um pouco de calor humano. E como gostaria de abraçar meus netos. Meus filhos partiram me deixando um vazio enorme dentro de minhalma sofredora. E nunca me visitam. Neste Natal, que se avizinha, mais uma vez vou estar só. Não tenho nem a quem presentear. Vivo pensando no dia em que me despedir da vida. Ela tem sido pesada demais para meus ombros frágeis. Pressinto que meu fim está próximo. Vou partir antes do ano novo. Não tenho a quem prantear a não ser a mim mesmo”.
Durante a consulta permaneci calado. Ele, aquele senhor simpático, ensimesmado, mostrou-me suas entranhas. Era o tipo de gente que vive entre a apatia e a demência. Com sinais inequívocos de tristeza evidente.
Ao fim da nossa conversa, que durou mais do que uma hora inteira, ele se despediu de mim com um afetuoso abraço. Percebi duas lágrimas rolarem de sua face crispada pelos anos.
Escutei, assim que ele deixou minha sala, estas palavras que deixo escritas: “doutor, sinto como se um amontoado de carunchos me consumisse por dentro. Minhalma está carunchada. Meu corpo está prestes a ruir por fora e por dentro”.
Ainda hoje penso nele. O que a tristeza faz com a gente…