O enfim que nunca termina

O quase quase sempre se transformou no mesmo quase.

Nada de aquela construção ficar pronta.

Zé Mandinga, acostumado a trabalhar diuturnamente, pedreiro por predestinação, não via a hora de terminar a própria casa.

Ele morava de aluguel.

Numa casebre coberto de telhas de zinco. Onde, quando chovia goteirava mais do lado de dento do que do lado de fora.

Zé acordava cedo. Dormia pouco. Durante a noite sonhava que sua casinha pequenina estava pronta. No entanto aquela construção, feita com tanto esforço, não passava do alicerce.

Ele havia comprado tijolos numa demolição. O cimento ficava fiado. Naquele mês de outubro, quase ao seu final, devia mais de dez mil reais ao dono da loja de material de construção.

Zé Mandinga era um pedreiro de mancheia. Mestre na arte de assentar azulejos. Perito na cimentação.

Era disputado pelos mestres de obras. Sabia como poucos do seu ofício. Começou como servente. Passou a meia colher. Sabia mais do que os engenheiros. Só não tinha diploma por falta de oportunidades. Um dia, pensava ele, quando adquirisse maior idade, quem sabe se formaria numa escola de engenharia? Só o futuro iria vaticinar.

Naquela quase madrugada de outubro chovia mansamente. Diziam, os entendidos, que a chuva tão esperada iria perdurar o resto de semana inteiro.

A obra onde trabalhava não ficava pronta na data prevista. Faltavam alguns detalhes. O piso do banheiro teve de ser reformulado. Por culpa justamente do engenheiro, que mal sabia onde ficava a trena. Era de pouco formado. Quase um estagiário na arte de construir.

Zé Mandinga, acostumado às lidas do oficio, se desdobrava entre a construção de sua pequena casa e a outra de onde tirava a renda. Mal tinha tempo para se alimentar. Tomava um cafezinho magro durante os intervalos do pouco de tempo que possuía.

Esquentava uma quentinha ao chegar a casa. Dormia antes da novela das seis. E acordava antes do cantar do galo. E, montado numa moto, chovesse ou fizesse sol, não faltava um só dia de serviço. Era pontual como um certo relógio, conhecido no mundo inteiro por Big Ben.

A sua casinha não terminava nunca.

Até que, numa tarde de domingo, véspera de um feriado, na segunda seria dia de finados, com mão na massa, ajudado por um servente amigo, quando pensava, que finalmente sua casinha ficaria prontinha, desabou um aguaceiro que pôs tudo a perder.

A enxurrada levou tudo de roldão. Não restou pedra sobre pedra. Ruíram os alicerces. As paredes foram por água abaixo.

Zé Mandinga não desanimou. Persistiu na lida.

Dois meses depois, quando pensava que sua casinha havia ficado pronta, mais uma impropriedade aconteceu.

Foi dispensado da obra onde trabalhava por ter chegado atrasado num dia de muita chuva.

Foi quando faltaram recursos para continuar a edificação da tão sonhada casa. Ela mal saiu dos alicerces. Foi mais um enfim que nunca terminou.

Afinal. Quantos sonhos são esboroados? Os meus, quase todos…

Mesmo assim continuo a perseguir meus sonhos. Sem eles, o que seria de mim?

 

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