Quantos anos faz que morei ali.
Naquela casa, de janelas amarronzadas, paredes tintas da cor de palha, telhado enegrecido pelos anos, que daqui se avista pelos fundos, onde me criei, aprendi a ser gente, de onde me despedi faz tempo, e como o tempo passa, na velocidade de uma garça depois de avoar com um pescado no bico, temerosa de perder seu petisco, naquele voo gracioso, num farfalhar de asas rumo a alguma árvore qualquer.
Foi daquela casa, edificada por meu saudoso pai, que se despediu da gente há tantos anos atrás, deixando no seu rastro um passado apreciado e admirado por todos que o conheceram.
Foi daquela mesma casa, onde vivi tantos anos, desde menino, perto daquele hospital onde pela primeira vez, mãos trêmulas, fiz a minha primeira operação ao aqui chegar vindo de terras d´além mar.
Foi daquela casa, de tantas recordações ternas, que me transformei de menino artioso no adulto que me tornei. Anos idos agora me considero quase ancião. Com a alma de criança.
Foi daquela mesma casa, que me olha pelos fundos, o meu quarto era aquele visto no andar de cima, onde hoje dorme uma senhora, minha querida irmã, que aos mais de cinquenta anos mais parece uma menina.
Rosinha no dia de hoje vai se mudar. Para outra casa. De propriedade de nossa família.
Ela não vai nos deixar. Apenas muda de lugar. E aquela casa vai ficar vazia. Não de saudades. E sim recheada de nostalgia.
Aquela mesma casa, onde passei parte da minha infância, no dia de hoje, vinte e nove de outubro, quase dia de finados, vai estar vazia de gente.
Ela, aquela mesma casa, por onde sempre passava, ao cair das tardes, antes da pandemia, vai fechar as portas. Mas nunca deixarei de sentir saudades daqueles anos bons. Que o tempo levou. Anos atrás.
Aquela casa, que me olha com ares de despedida, agora vai ficar para sempre encantada, nos meus sonhos juvenis.
Um dia podem fazer dela escombros. Podem demoli-la. Mas nunca conseguirão apagar dentro de mim as doces recordações que ela me enseja.
Aquela mesma casa, da Rua Costa Pereira, número 152, vai ficar para sempre nas minhas lembranças mais caras.
Ainda me lembro, anos avoam, daquele dia fático quando meu pai se foi.
Ele partiu ao infinito nos meus braços de médico. E eu, impotente, nada pude fazer para alongar-lhe os anos. Foi naquela mesma casa que hoje vai estar vazia.
E, quando passar por ali, numa despedida fugaz, me lembrarei do meu passado. Ele não esta sepultado. Nunca me olvidarei do meu passado. Embora sabedor que o que conta é o presente. O futuro nos faz caminhar adiante. Mas, o passado, é tão envolvente, que não me desprendo dele. Por mais que deseje.
Aquela mesma casa, que a partir de hoje vai estar vazia, nunca dela me esquecerei.
Mesmo que a façam em ruinas. Em seu lugar irão se perpetuar lembranças. Dos tempos em que fui criança.
Doce infância. Pena que os anos não voltam mais.
Com ela se foi parte do meu passado. Hoje tento me consolar com o presente. Aceitando o que o futuro nos reserva. Sem, jamais, me esquecer do quanto fui feliz junto aos meus pais.