Sonhos do garoto Zezinho

“Sonhos que se sonham em separado são apenas sonhos. Aqueles que são sonhados juntos via de regra se tornam realidade conjunta”.

Este escrito, grafado num pequeno quadro dependurado a uma parede branca, se mostrava, orgulhoso, na parede do quarto onde dormia o pequeno Zezinho.

E quem era o pequeno Zezinho?

Era um moleque bem comportado, estudioso ao extremo, que nasceu num tacanho pedaço de terra, onde deixou o umbigo enterrado debaixo de uma bananeira que já deu cachos, mas ali não fincou raízes, não amava a vida na roça, a exemplo de um seu colega de profissão, médico mais longevo, que tanto amava as vacas, seus bezerrinhos famintos, as galinhas caipiras, e, cuidando deles todos o bom homem de mãos caludas, pele tostada de sol, acostumado a acordar com as mesmas galinhas, misturas de muitas raças, para se desdobrar em incontáveis tarefas: buscar vaca extraviada na cerração, tirar a cria entalada na parturição complicada, depois ordenhar as mesmas ruminantes, roçar pasto quando as pragas ameaçam tomar conta do capim próprio ao alimento das mesmas vacas, alimentar a porcada faminta, colher a roça de milho em ponto de ensilar, e, por ai caminha a humanidade rural, sobre quem cada dia toco no assunto, só tenho palavras a encomiar.

Aos cinco anos o mesmo garoto nascido e não criado na roça, pertinho de uma cidade com fama de ser comarca erudita, alcunhada de Terra dos Ipês e das Escolas, município de boa situação geográfica, não muito perto nem muito distante de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, ao ver a situação aflitiva dos progenitores, vindos de antecessores oriundos do Líbano, na parede da sala da casinha onde morava a família se mostrava uma fotografia dos parentes ainda em Beirute, ao antever-lhe o futuro que não seria ali, acabou fazendo as malas e indo morar com um aparentado que vivia na cidade perto, não precisa dedilhar-lhe o nome, já foi definido no mesmo parágrafo longo.

Zezinho se despediu dos pais, deixou os três irmãos chorando de aflitos, das vacas que mal amava, das galinhas cacarejantes, dos porcos não fez caso.

Era uma viagem sem volta. Como disse antes o aplicado estudante ambicionava vôos mais altos que o das maritacas verdes gritantes, que empestavam os ares da roça com suas algaravias rurais. A vida singela do campo a ele não servia. Amava o burburinho das ruas asfaltadas, a vida corrida do cotidiano, a rotina branca dos hospitais a ele seduzia, assim como uma coleguinha de escola, com quem teve um namorico em criança.

Na cidade, aos seis anos apenas, completos naquele ano, passou a estudar numa escola pública, já que os pais não podiam pagar outra que não fosse gratuita.

Logo cedo foi se destacando, distanciando-se dos demais, e acabou sendo convidado, apenas com doze míseros anos, a ser ajudante de professor, nas suas matérias prediletas, que eram a ciências e biologia, mas arranhava bem em português e matemática.

Um belo e lindo dia, já nas barbas de entrar a universidade, escolheu o curso de medicina, caminho trilhado pelo irmão mais velho, cruzou-lhe o caminho a mesma coleguinha pela qual mantinha um chameguinho, nos bons tempos que não voltam mais. Foi ela mesma quem lhe deu três filhos, mas queria mais.

Zé, com um sobrenome aplicado aos libaneses, se destacou na escola médica pelo pendor que ostentava em sua pele branquinha, cabelos negros com a asa da graúna, por um objeto corto perfurante, ao qual se dá o nome de bisturi.

Uma vez feito esculápio foi aluno da coluna do meio, escolheu a Urologia (a mesma especialidade complicada que elegi).

Foi o quarto a espalhar sabedoria e capacidade nessa mesma cidade onde não nasci, não tenho o umbigo enterrado, mas o coração, ah!, esse vai ficar aqui mesmo, junto às lembranças dos meus pais, e de tantos outros amigos caros que cá, na minha Lavras querida, se juntam as minhas reminiscências tantas que são e serão.

Mas, o irrequieto e sonhador José, urologista de escol, lotado no velho hospital vizinho da casa onde moraram meus pais, a tão citada em minhas crônicas Rua Costa Pereira, anos depois de exercer com sagacidade e desvelo a sua nobilíssima arte, queria ir mais alto.

Embora a carreira política, herdada dos dois irmãos, nunca lhe houvesse passeado pela cabeça, o nosso personagem, depois de ver o irmão ser destituído do cargo, mesmo tendo sido um excelente alcaide, candidatou-se, sem nunca ter sido vereador, ao cargo de maior envergadura de uma comunidade. A prefeitura municipal seria a bola da vez (e ele nunca jogou sinuca).

Venceu no primeiro turno. E nem precisou de returno.

O prefeito José, aparentemente inexperiente na arte de governar, foi pondo as manguinhas de fora, cercando-se de gente competente, e compenetrada, para ajudá-lo na difícil missão de gerir os destinos de uma comarca, com tantos débitos a serem sanados, a exemplo de incontáveis municípios esparramados pelo Brasil afora, tomando medidas saneadoras e inadiáveis, uma das mais louváveis foi a tomada pelo departamento de trânsito no sentido de coibir o estacionamento na artéria mais movimentada da cidade, tapar buracos era mais uma prioridade, máxima, que, um dia, quando estava descrente, de tudo e de todos, mais uma iniciativa de excelente tirocínio foi estabelecer um plano de pagamento dos salários do funcionalismo municipal, coisa herdada da administração pretérita.

Assim foi feito, sem defeito.

Ainda no começo da sua administração o jovem Zé mostrou e demonstrou fôlego, quase igual ao meu, corredor assumido e não consumido pela distância percorrida.

Quatro longos anos ainda restam ao sóbrio prefeito Zé Cherem. Meu colega de Urologia.

Tomara que estes anos que lhe restam se desdobrem em mais tempo ainda.

Esse é o desejo, não de um poeta, ou escritor fecundo, que enxerga muito, graças à sensibilidade tamanha que me atapeta a alma, desde o âmago a ponta afiada do bisturi, que o competente urologista, meu prefeito, e de todos os lavrenses, demonstra aqui, neste texto que saiu fácil, como foi a parturição da vaca Mimosa, que pariu no mato denso uma linda bezerrinha, da mesma saudade que tenho da aurora da minha vida, que a minha infância querida não mostra mais…

O sonho colorido do garoto Zezinho não foi apenas um sonho, mas se tornou uma palpável realidade para felicidade nossa.

 

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