Força Pirunguinha!

Bem me lembro de você, espertinho como era eu, correndo na beira lago, tentando abocanhar marolinhas feitas pelo caminhar de barcos na represa de Camargos.

Irrequieto meu cãozinho esperto.  Sem parança como eu sou. Um da raça dita como das mais inteligentes entre os adoráveis cães. Os Border Collies justificam a fama. Cães feitos para pastorear rebanhos. De origem anglo saxônica. Fiéis tanto aos seus donos quanto as crianças ou os de mais idade.

Pirunguinha recebeu esse nome em homenagem a um dileto amigo. Aquele que lhe emprestou o nome não mais vive nesse mundo. Decerto hoje vagueia de bar e bar. Tomando todas e algumas mais. Emprestando sua arte de carpintaria na construção de um telhado no céu. O amigo Pirunguinha, gente boa, irmão da Doía, da Zaninha e da Betel, deixou-nos,  além da saudade, uma  grande amizade aos que ficaram.

Meu outro amigo Pirunguinha, da raça canina, tem dentes afiados, mas é incapaz de morder a alguém. De uma mansidão de monge budista. Corredor contumaz ele vive solitário à beira lago da represa de Camargos. Rasas vezes o tenho visitado.  Mas em pensamentos sempre penso nele. Da última vez que ali fui percebi nele um ar de cansaço. Mesmo assim ele se atrevia a tentar morder marolinhas com seus dentes alvos e pontiagudos.

Com que prazer caminhava ao seu lado na orla da represa. Cães maiores não o intimidavam. Ele respondia a ameaça de outros cães com um simples rosnar de dentes.

Pirunguinha deixou descendentes. Ainda me lembro de uma. Laika Rosa não viveu junto a ele por muito tempo. Foi levada dali por um motivo justificável. Tinha um costume execrável. Comia todas as galinhas da vizinhança. E meu amigo de quatro patas e pelagem em preto e branco, não era seu cúmplice. Não sei se ele a recriminava ou participava de seus atos delinquentes. O fato é que a bela cadela Laika foi morar em outra represa. Junto aos meus dois cães, o fila Clo e o meio vira-lata Robson.

Laika acabou viralatando pelas ruas da bela Ijaci. Dada a sua peculiaridade de jantar galinhas ao molho pardo.

Pirunguinha novamente se viu solitário. Vivendo e convivendo com a nossa saudade.

De vez em pouco o visitava. E andávamos lado a lado a beira lago.

Ele dormia na varanda de minha casa quando ali estava. De outras vezes ele pernoitava a porta da casa do Valdir.

Sempre me recordo do amigo Pirunga vendendo saúde. Corredor intrépido. Perseguidor intransigente das ondinhas curtinhas feitas com o passar dos barcos e Jet skis.

Não me lembro dele adoentado. Da última vez que ali estive notei-o meio amuado. Ele me lançava olhares vazios. Como se quisesse me dizer, com seu olhar doce: “meu amigo. volte em breve. Sinto saudades de você”.

Pirunguinha nem me acompanhou na minha derradeira despedida de Camargos. Não vi como ele ficou.

Agora, desde a última sexta feira, ele foi internado numa clinica veterinária na minha querida Lavras.  Bastante debilitado, carecendo de transfusões de sangue, ele pouco a pouco se recupera. Assim espero vê-lo completamente restabelecido. Caminhando juntinho comigo. E perseguindo marolinhas na beira do lago.

Meu amigo Pirunguinha conta com apenas quatorze anos. Talvez menos um ou dois.

Cães não vivem além dos vinte. No máximo sobrevivem alguns anos mais.

Força meu amigo Pirunga! Resista estoicamente a mais essa enfermidade. Torço por você.

Em muito breve estaremos juntos de novo. A correr desembestados a beira lago da represa de Camargos.

 

 

 

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