Nem tudo está perdido

E agora Paulo Rodarte…

Que mais uma coletânea de crônicas está prontinha.

Elas foram escolhidas uma a uma dentre um universo de quase três mil.

E como foi apetitoso escrevê-las em madrugadas insones quando as ideias martelavam-me os pensamentos.

E aqui chegava a mesma hora de hoje bem cedo nessa minha rotina que não pretendo mudar.

Confesso que, enquanto estiver vivo, com essa clarividência que graças ao bom Deus tenho a honra e o gáudio de desfrutar. Assim pretendo continuar.

Foi fácil e gostoso escrever tantos textos. Pelas minhas contas contabilizo mais de vinte mil.

Tarefa espinhosa sim foi escolher quais delas iriam perfilar em ordem alfabética nesse livro de nome O CANTO DAS CIGARRAS que está prestes a nascer numa maternidade onde não se escuta o choro das crianças e sim o tiquetaquear das máquinas impressoras que não param até meu filho livro nascer.

E agora doutor Paulo Rodarte. Não me esqueci do Expedito nem do Abreu que termina meu sobre.

Como o senhor vai pagar tantos exemplares nesse malfadado país onde livros não são objetos de consumo em primeira necessidade. Talvez em último lugar livros estejam.

E agora nobre e insano doutor.

Como é que o senhor tem coragem de editar mais um livro nesses tempos bicudos onde quem tem dinheiro vai morar no exterior.

E agora doutor Paulo. Que os parcos leitores que apreciam uma boa leitura, estariam eles dispostos a comprar mais esse livro seu? E eles não achariam caro pagar uns cinquenta ou mais reais por uma coletânea de crônicas de quase seiscentas páginas? O senhor não tem receio de ficar com mais livros encalhados a mofarem na sua estante?

E agora, em boa hora doutor urologista ainda praticante.  O que pensas da atualidade em que vive o nosso país? Com tanta gente esmolando pelas ruas. Crianças oferecendo balas nos semáforos.  Com tantas lojas de portas abertas por onde fregueses não entram. Com essa crise que se manifesta em cada esquina. Não seria melhor o senhor, eu, deixar pra depois a edição de mais esse livro?

Considere meu bom doutor sem ser titulado doutor por não ter doutorado nem mestrado.

Livros não são afanados. Pode deixá-los à vista de quem avista porque nenhum passante vai deles se apropriar indevidamente.

Eu não via a luz ao fim da estrada até ontem de noite.

Foi quando deixei meu apartamento bem aqui no centro para comer alguma coisa.

Fui em companhia de mim mesmo. Antes só a mal acompanhado.

Levava minha manjada bolsa apensa ao pescoço.  Dentro dela Rakel meu último romance.

Cheguei, antes passando pela praça, usando as pernas como rodas, procurando saber de um ou outro se tinham o costume de ler livros.

Mais de noventa por cento nunca passaram os olhos num amontoado de palavras formadoras de livros.

Dez por cento delas também não tinham o hábito da leitura.

Naquele boteco infecto, ao me apresentar a dona como sendo um médico escritor ela disse não me conhecer e nem sabia ler direito.

Nem tive a audácia de mostrar Rakel a ela. Rakel continuou em minha bolsa mal conseguindo mostrar a sua capa.

Paguei a bagatela de quase cem reais naqueles petiscos que hoje foram ejetados no vaso sanitário ruidosamente. Não direi que tudo aquilo me fez mal para não constranger quem fez aquela porcaria.

Voltei ao meu apartamento a passadas lentas falando a um e a outros sobre o prazer de uma boa leitura.

A maioria me ignorou e até um deles me chamou de doido e sonhador.

Já angustiado e ensimesmado comigo mesmo. Sabendo na contramão dos meus anseios que não adianta escrever tanto, pois quase ninguém aprecia ler. E que comprar livros então trata-se de uma insanidade manifesta, pois um dia alguém me afirmou que hoje livros impressos são figuras dinossáuricas em extinção total.

Quase na dobrada da ruinha onde moro encontrei um jovem usando barbas negras e andando pensativo até chegar aonde morava.

Interpelei-o mesmo não sabendo quem ele era.

Apresentei-me através do meu site. Fi-lo ver que era também médico escritor (peça de museu-um fóssil vivo).

O jovem rapaz coçou a barba negra. Pediu que suas pernas parassem de andar. Interessou-se pelas minhas duas atividades- médico e escritor.

Admirado por aquilo que eu sou. Garantiu-me e me afiançou que, por ser doutor em letras e professor de literatura, amava os livros como eu os amo a loucura, principalmente os meus.

Antes pensava em suicídio. Atentar contra a minha droga de vida.

Mas depois dessa prosa literária curta acabei por ver uma luzinha cintilante ao fim da estrada.

Nem tudo está irremediavelmente perdido.

Está decidido. Vou publicar mais um livro. E não vai ser o último.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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