Agora já são cinco e vinte e cinco dessa madrugada tão linda desse vinte e quatro de março.
Todos temos a nossa hora.
A hora e o dia de ver o mundo pela primeira vez chorando surpresos ao conhecer nossa mãezinha sentindo dores a hora do parto naquela sala pra nós desconhecida num hospital ou num quartinho acanhado em nossa casinha ou noutro lugar qualquer.
Naquela hora de nosso despertar para o mundo mal sabemos o que nos reserva outra hora em nosso porvir.
Outras horas nos esperam.
Já crescidinhos, à espera do ônibus que vai nos levar à escola. De merendeira às costas. Uniforme impecavelmente alinhado em nossas costinhas eretas até quando não sabemos. Não víamos a hora de ouvir o apito agudo a nos dizer: “´Paulinho, menininho espertinho, é hora do recreio. Podes jogar tapão e bolinhas de gude. Mas não se esqueça da hora de voltar a sua salinha. Pois ali te espera a professorinha pronta a te ensinar o baba. Bem sei que vocezinho fica mais alegre em aprender palavrinhas. Já que os numerais são mais difíceis ao seu entendimento, mas serão precisos vida afora. Tanto a hora de pagar as contas quanto a outra hora de botar a mão no bolso a hora de passar pelo caixa de um supermercado.
Ontem, à hora do banho, depois de uma ducha morna no vestiário do clube onde nadei um bocadinho. Depois de malhar pesado na academia desse clube pelo qual tenho o maior apreço. Já no meu apartamento amplo no centro da minha amada Lavras. Olhando pelo lado de fora da janela vi um camaleão branquinho tentando escapar da morte certa.
Elezinho mal tinha forças para se segurar naquela vidraça de vidro embaciado. Fosco escrevo para melhor entendimento. Naquela hora exata que me enxugava na toalha o pobre bichinho inofensivo. O qual lagartinho se alimenta de coisinhas que pra gente não tem sabor. Desprendeu-se do vidro da janela e caiu lá embaixo mortinho da silva.
Foi chegada a hora de sua despedida desse mundo onde vivemos. Uns mais felizes e outros nem tanto.
Já deixei escrito: “me cansei de noticiar óbitos. Já perdi tantos amigos. A maioria deles felizmente ainda estão comigo a espera da hora de noutra hora irem embora”.
Já a conhecia de tempos idos. Quando a confecção de minha esposa era noutro bairro onde morei no pretérito. Naquela casa enorme onde, durante a construção passava horas e outras observando o trabalho estóico dos pedreiros. Catando pregos perdidos nas frestas do assoalho feito em tábuas corridas de madeira nobre.
E por ali passava descendo um morrão topetudo pelo consultório de um colega já falecido. Um baita ginecologista também praticante de acupuntura e outras artes inerentes à medicina.
E por vezes a encontrava, em direção oposta, a sua amável secretária. Uma moçoila clarinha e de uma simpatia extrema. Que sempre me cumprimentava sorridente exibindo sua dentição perfeita.
Tempos mugem de saudades delazinha.
Agora, em outra hora, tempos depois, com a mesma mocinha que me parecia feliz e realizada. Subia pelo elevador desse meu prédio onde tenho minha oficina de trabalho. E onde exerço minha dupla militância me desdobrando num equilíbrio instável entre a urologia e a escrevilhança que pratico. Com essa mesmo mocinha feita mulher, cujo nome não me sai da cabeça “Renata”.
Ontem voltei a escrever sobre mortes, ou melhor, escrito – despedida dessa vida e por certo iremos passar a outra.
Fui informado num dia desses da morte prematura da secretária Renata.
Aquela mesma pela qual passava noutras horas naquela rua que desce do LTC à confecção da minha pequena grande mulher.
Renata se foi.
Penso que ela se foi e não era aquela a sua hora.
Muitos se vão prematuramente. Já outros partem no tempo certo depois de uma existência profícua e alongada.
Aquela mocinha sorridente e de bem com a vida. Com quem me cruzava no bairro Centenário onde morei.
Renata nos disse adeus e não até breve.
Infelizmente, penso eu, dizendo adeus a Renatinha. Que pena. Poderia não era aquela a sua hora…