Senti-me realizado

Seria possível, num tempo ignorado de nossa vida, que seja no mais tardar dos anos.

Ou mais prematuramente. A gente sentir por dentro uma sensação maravilhosa de felicidade. Palavra de algumas letras sonoras que da no memo que deixar escrito alegria?

Sentir-se realizado, tanto na vida profissional quanto em outras esferas. Que sejam elas redondas ou quadradas. Subtende-se, no meu entendimento, se dar bem naquilo ou naqueloutra atividade.

Um atleta de alta performance. Que seja no futebol que já admirei antes. Nos tempos idos quando morava na capital. A cidade onde moravam e ainda ali habitam as mulheres mais lindas de nosso Brasil. Estudava com afinco e muita afinidade a fim de me preparar para entrar na faculdade  de medicina. Depois de um cursinho preparatório bem feito senti-me realizado ao passar no vestibular. Tempos idos deixaram saudades. Naqueles dias não via a hora nem o dia de o final de semana mostrar a cara risonha.

Era quando ia ao Mineirão para assistir uniformizado a caráter com as cores azuis e brancas do time do Cruzeiro.  Que jogos gostosos de se ver quando pelos gramados corriam jogadores como Tostão, Dirceu Lopes, o goleiro da camisa amarela que era chamado de Vanderleia;  e outros peladeiros mais.

Sentia-me realizado, embora naqueles idos anos fosse um verdadeiro perna de pau que, quando chutava ao gol a bola redonda acertava  a bunda da vaca naquele campinho cambeta com traves feitas de dois bambus fincados um de cada lado. E a trave de cima sempre caía ao chão quando nela acertava a pelota.

No mais tardar dos anos sentia-me feliz e com sonhos convertidos em realidade quando aqui na minha amada Lavras cheguei nos tempos idos de um mil novecentos e setenta e sete.

Vindo da Espanha, depois de proveitosos anos na bela Madri. Aperfeiçoando-me mais um cadinho na minha espinhosa especialidade- Urologia.

Com que gáudio e satisfação, já no centro cirúrgico de um dos três hospitais. Qual seja no Vaz Monteiro, vizinho da casa dos meus pais onde cresci mais de metro e mucado.  Ou aqui pertinho na velha Santa Casa; nosocômio que tem mais idade que a minha cidade. Ou até mesmo noutro hospital de nome Lúcia Pinheiro.  Que já não trata mais da saúde dos demais cidadãos, pois já virou escombros e agora se tornou um lote vazio a espera de novas edificações.

Senti-me realizado ao inovar a cirurgia tão temida de próstata. A qual tinha de ser feita através de incisões no abdome inferior. Entrar pele adentro, aponevroses cortadas, afastar músculos sem lesá-los desafortunadamente.  E, uma vez vendo a parede da bexiga mostrar o detrusor, seu músculo hipertrofiado. Entrar por ela adentro. Usar um afastador para ver melhor a tal próstata crescida que entope a saída da urina. Sacar com o mesmo dedo usado para o toque retal para retirar o miolo da glândula. Deixando intacta a sua cápsula. E fechar a parede vesical com uma sutura contínua e deixar a parede  fechadinha; não sem antes deixar uma sonda enfiada na bexiga para não permitir que os coágulos  desgarrados entupam a outra sonda enfiada na uretra.

Sentia-me realizado ao ver o paciente receber alta em bom estado urinando a contento sem molhar o tampo da privada.

Anos se foram. Acumulei muitos anos aos meus de antão.

Não mais sou jovem, mas não me sinto ancião.

Agora exerço a urologia em fogo brando.  Não tanto quente nem frio ao exagero.

Sinto-me realizado ainda não me aposentando por completo. Minha oficina de trabalho ainda a mantenho de portas abertas em meio expediente.

Metade do meu tempo ainda sou médico praticante.

A outra parte mudo de vestimenta. Desvisto-me do branco diáfano que dantes os esculápios usavam para me vestir em outras roupagens. Agora uso o computador para escrever tanto as minhas crônicas diuturnas como os romances que já deixei escritos.

Na minha querida cidade quando, a um ou outro pergunto se me podem indicar um bom urologista.  As pessoas que conhecem esse especialista dizem que um ou outro são bons e confiáveis.  Mas nunca seria eu o indicado.

Infelizmente o tempo apaga as nossas memórias. Pessoas não se lembram da gente. Médicos velhos são relegados ao olvido do esquecimento.

Ontem de noite senti-me realizado.

Voltava de um delicioso jantar num restaurante local bem acompanhado de meu filho Stenio, sua esposa Vanessa e meu não menos querido netinho Gael.

Fui e retornei usando o que tenho de melhor. Além do meu cérebro irrequieto meu par de pernas.

Chovia fino à volta. Recusei amavelmente a carona que me foi oferecida pelo meu amado netinho.

Esporeei minhas pernas para chegar rápido ao meu apartamento.

Já pertinho da rua onde moro parei junto a um casal de jovens meninos que esperva o ônibus para voltar a sua cidade que se chama Ribeirão Vermelho.

Aproveitei o abrigo de ônibus, pois chova fininho, e puxei prosa com o simpático casalzinho.

“Quantos anos vocês têm? São casados ou inda namoradinhos? Me conhecem? Podem me indicar um bom urologista em sua cidade? Ou por aqui mesmo”?

Ambos ficaram sem responder à principio.

Para que eles dois não ficassem muito tempo me olhando sem saber quem  eu era abri meu site- paulorodarte.com.

A mocinha moreninha da cor de jambo maduro, ao ler o que estava escrito na minha página da internet entre assombrada e maravilhada me respondeu: “o senhor é o doutor Paulo Rodarte médico e escritor? Não acredito!!! Sou sua leitora assídua. Não perco no Face Book uma única crônica sua. Por favor, não vai embora sem antes deixar a sua assinatura nesse meu caderninho onde tenho o autógrafo dos meus ídolos”.

De outras vezes já me senti realizado. Mas nunca como naquela noite chuvosa.

 

 

 

 

 

 

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