A vida pra ele perdeu o sentido

Qual o sentido pode ter a vida quando se perde a visão?

As pernas fraquejam. O andar claudica. A família nos abandona ao Deus te olha.

As coisas que amava tanto perdem o valor. O amor que sentíamos pela natureza se esboroa como achas de lenhas na fogueira do desamor. E tudo aquilo que valorizavas se tornam peças de um xadrez cujo rei recebe um cheque mate pelo peão que deveria defendê-lo do ataque de um bispo em quem acreditava na amizade que perdestes um dia não por culpa tua. E sim de um tabuleiro viciado de um jogo amaldiçoado.

Certo que um dia vais envelhecer.  Perdes tudo aquilo que mais davas valor. Já que os valores mudam como mudas de roupas a cada dia. E a rotina se torna enfadonha. E não tens como fugir dela. Fazes tudo igual a cada dia. Acordas ao nascer do dia. Trabalhas como um escravo a mercê da sandice do patrão. E ao final do mês mal tens alento para continuar tua sina. Malsinado dia em que nascestes. Bendita hora em que vai se despedir da vida. Essa mesma vida que tanto lhe prometeu felicidade e o ludibriou. Só lhe dando de presente tristezas e melancolia.

Meu amigo Geraldo. Meu vizinho de cerca na minha rocinha. Que nos primeiros anos de fazendeiro de asfalto me ensinou sua arte de retireiro.  Que não se deve acreditar em terceiros. Que não se leva manta quando se entende do assunto. Que vaca de três tetas não da leite como as de quatro peitos perfeitos. E a razão pra mim então desconhecida de o porquê de tantos porqueres. Por quê? Indagava-me. De o leite ser tão branquinho uma vez emerso de um vaca pretinha.

Esse meu amigo do peito era em que confiava. E quando ele me propunha um negocinho pra mim era de mais valia. Trocava uma vaca velhusca por uma novilhota recém coberta por um touro de bom pedigree. E se ela não desse leite a entornar o balde ele a receberia de volta ao seu curral. Sem ônus pra mim ou pra ele.

Pena que meu amigo envelheceu. Apareceu-lhe uma tremura nas mãos. Seu corpo antes rijo não consegue andar mais. Sua vista embaçou. E as vacas que tanto amava foram vendidas ao açougue.

Meu amigo foi despejado da rocinha que tanto amava. De lá só restam saudades.

Mas suas lembranças continuam afiadas como o fio da foice que usava para carpir mato alto.

Agora meu amigo mora na cidade. Na sua rocinha não volta mais.

Foi quando o visitei no hospital.

Ele foi internado na semana passada. Vítima de mal súbito.

Agora meu amigo mal enxerga a luz do dia. Fica atado pelos tornozelos ao leito de um CTI. Incapaz de reconhecer velhos amigos.

A minha chegada ele esboçou um sorriso. Quase imperceptível nos seus olhos quase transparentes dando para perceber a dor que ele sentia por estar ali.

Uns parcos minutos se passaram. Quase a nossa despedida ele me pediu um tempo.   O suficiente para entender a sua mensagem.

“Meu amigo. Não precisava muito para ser feliz. Uma cama macia era suficiente. Levantar cedo era de meu costume. Ir ao curral ordenhar minhas vacas. Fazer catiras com você me alegrava muito. E se eu lhe passei manta me perdoe. Não tinha a intenção de lhe passar pra trás. Tinha por você uma grande amizade. Quando você me visitava era motivo de muita alegria. Mesmo quando seus cães importunavam os meus. Agora não mais vivo como dantes. Nem mesmo consigo apertar as mãos de quem amo tanto. Só me resta um consolo. Ter você em meu box a me visitar. Sei que minha vida está por um sopro. Amanhã não sei onde estarei. Se desligarem esses aparelhes com certeza paro de respirar. E meu coração vai parar de bater. Já me alijaram de tudo que amava. Só falta me alijarem de mim”.

Deixei meu amigo Geraldo com um sentimento de inutilidade. Pra que tem serventia tudo que fizemos em vida? Se nosso trabalho não foi valorizado pra que tanto esforço? Tanta dedicação?

A vida perde o sentido quando nos sentimos inúteis.  Sem ao menos podermos esboçar o carinho que sentimos pelos nossos amigos.

Um dia não mais estaremos por aqui.  Onde vamos morar?

A vida pra mim só tem sentido quando abrimos os olhos.

Pois, depois de fechados ninguém vai se lembrar de nós.

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