Vitinho chegou àquela idade de urinar assentado. Com a tampa do vaso abaixado. Senão a sua dona iria ralhar com ele. Pois ela não admite banheiro fedendo a urina vencida. Nem ao menos uma gotinha de xixi fora do lugar devido. E o pobre quase velho obedecia de olhos bem abertos as ordens de sua dona. Uma senhora bem mandona. A qual temia tanto quanto uma mula sem cabeça soltando fogo pelas venetas.
Vitinho era uma pessoinha quase sem defeitos. Fora alguns cacoetizinhos. Como limpar o narigão usando o dedo maior da mão esquerda. E coçar a cabeça quando uma dúvida o atormentava. E era sempre assim que vivia até aquela idade dita madurinha. Já dobrando a serra e descendo a curva dos seus muitos anos.
Ele não se lembrava mais de quando havia tirado as derradeiras férias. Já se foram anos, tantos que nem dava conta de contar nos dedos.
Naquela manhã de março acordou à hora costumeira. Ao seu lado ressonava e fungava a dona Mariquinha. Sua esposa desde há muitos anos. A qual não lhe deu alegrias e sim tristezas.
Não tiveram filhos, não por vontade dele. Até que um pimpolhozinho seria de bom tamanho. Mas ela não queria por puro egoísmo. Dona Mariquinha era uma mulher que exigia atenção total. Era ela o centro da discórdia. E se Vitinho não lhe obedecesse às ordens ai delezinho. Ficava de castigo sem usar o celular pelo ano inteiro de janeiro até que outro fevereiro fechasse os olhos. E não iria desfrutar de um merecido descanso. Por mais que merecido.
Naquela manhã de março chovia de mansinho. Uma chuvica de molhar bobo. Foi quando, em plena madrugada, Vitinho ligou a televisão. Noutro quarto para não incomodar a dona Mariquinha. Naquela hora ela fingia que dormia. De olhos fechados observava tudo que seu marido fazia.
Foi quando ele descobriu. Num comercial televisivo. O anúncio de um hotel numa ilha da Bahia de nome Comandatuba. Não pensou cinco vezes. Anotou o telefone e partiu para a ação.
Comprou o pacote às escondidas da sua dona mandona. Manteve tudo em sigilo absurdo.
Nem foi preciso usar seu cartão de crédito. Pagou em dinheiro morto (se é que é possível).
Comandatuba era tudo que sonhava. Ficar uma semana inteirinha tomando água de coco e comendo camarões fritos à beira da piscina de águas tépidas e cristalinas.
Assim procedeu. O difícil foi guardar segredo da sua dona mandona. Ela desconfiava de tudo que o pobre marido fazia.
Enfim chegou a data da partida.
Seu Vitinho já havia feito as malas às escondidas.
Era um sábado de março. Com a desculpa de ir à cidade lá se foi ele dizendo que ia fazer compras. Não iria demorar muito. Antes que a tarde virasse noite estaria de volta.
De carona no velho caminhão leiteiro o bom homem se foi. Levando uma soma em dinheiro de não se jogar fora. Contando em miúdos mais de cinco mil. Noves fora o resto que guardava na cueca.
Era a primeira vez que andava de avião. Benzeu-se, fez uma breve oração e viu o grande pássaro avoar.
Em uma horinha inteira chegou ao seu destino. Não acreditava em tudo que via.
Coqueiros balouçavam ao vento. Uma brisa gostosa assoprava em seus cabelos.
Com a mala lotada de roupas quentes teve de se desfazer de tudo aquilo. Comprou bermudas numa lojinha do hotel de veraneio.
Nem teve tempo de descansar da viagem. Já no amplo apartamento foi direto à piscina.
Lá mergulhou de cabeça. Pena que a piscina, por ser bem rasinha, acabou por fazer dele um mergulhador inconsequente. Passou o resto do dia na enfermaria do resort. Tratando de um galo que cantava sem ver a madrugada despertar.
No dia seguinte, refeito do mal feito do susto, Vitinho foi almoçar.
Empanturrou-se de camarões com casca e tudo. Bebeu todas as caipirinhas possíveis e imaginárias. Foi levado de novo à enfermaria. Dessa vez com caganeira das bravas. Passou o resto do dia e a noite inteira no trono sem ser rei ou majestade.
Mas não tomou jeito. Assim que teve a idéia, infeliz, de tomar banho de mar. Pura mardade!
Andando na areia da praia acabou pisando numa água vivinha. E como doeu a planta do pé. Foi levado pelo salva vida de novo à enfermaria. De onde saiu prometendo não voltar.
No terceiro dia mais um problema. No almoço no restaurante pardais importunavam os visitantes. Eram hóspedes indesejáveis. Habitués comensais que não pagavam as refeições.
Vitinho sacou da algibeira o seu bodoque. E estilingou com um tiro certeiro duas dúzias daqueles passarinhos viralatinhas que ciscavam restos de comida.
Foi preso por maltrato aos animais. Permaneceu no xilindró pelo resto da semana. Sem poder curtir as merecidas férias.
Vitinho se despediu de Comandatuba sem pegar um bronze. Mais branco que lençol estendido no varal depois de ser lavado com Omo.
E chegou sua rocinha desiludido e desenxabido com tudo aquilo.
Gastou todas as suas economias de uma vida inteira. E ainda sobrou para a outra.
Foi quando, nessa segunda feira, dezessete de março, dia chuvoso, céu macambúzio, no encontro que tivemos fortuitamente. Dei-lhe as boas vindas nessa prosa curtinha.
“E ai, amigo Vitinho. Como foi de férias? Gostou de Comandatuba”?
Ele, num muxoxo meio chocho me respondeu simplesmente: “fui e vortei!”