Não que minhalma estivesse triste.
Mas carecia de deixar o sol entrar.
Que linda manhã amanheceu no dia de hoje. Quase véspera do Natal.
Hoje o calendário assinala dia vinte e dois de dezembro.
Manhã exuberante. Rica em raios de sol.
Parece que a chuva vai nos dar tréguas. Precisa.
Também pudera.
Como meu amigo Roberto e seu filhotão Binho vão continuar a adubar as suas roças de milho com esta barreira que faz atolar até as rodas enormes do trator? Como eles conseguem subir o morrão topetudo até lá no alto? Onde irão encontrar os pezinhos de milho de mãos ao alto dizendo: “obrigado dona chuva por nos irrigar com sua água que já vem carregada com a dose certa de adubo e os nutrientes tão importantes para que eu e meus irmãozinhos vamos chegar a altura exata de nos embonecarmos e produzir espigas enormes”?
Tudo é preciso moderação e cautela. Ora deve chover demais ao mesmo tempo a chuva deve escassear.
A toda manhã. Ao chegar a minha oficina de trabalho. Sempre a mesma hora. Bem cedo.
Antes das seis. Por vezes madrugada acordando.
Tenho tido o saudável costume de me barbear. E depois passar a escova de dentes pela minha dentição não mais de leite. Tomar uma ducha quente para deveras o sono enxotar.
Vestir a mesma roupa dependurada no cabide. Hoje visto uma calça jeans e uma camisa da mesma cor azul. Não me esqueço da minha carteira e do meu celular. Carteira vazia e celular já previamente carregado. Apanho minha pasta sempre recheada de livros. Em breve mais um romance vai ser inserido dentro dela. O de nome Rakel.
E em poucas passadas aqui estou. Abro as portas de vidro blindex do edifício das clínicas pois o amável porteiro ainda não chegou. Tomo o elevador que me leva ao sétimo andar. Abro a porta do meu consultório. Ligo os dois computadores. Um defronte ao outro. Passo à copinha logo a seguir. Faço meu cafezinho expresso. Enquanto a máquina esquenta alimento meus peixinhos.
Vou a antessala onde fica a adorável Zaninha. Que no dia de ontem assoprou mais uma velinha. Não irei dizer qual idade ela inaugurou. Por puro comedimento. Já que mulheres hesitam em dizer qual idade alcançaram. Tolice. Ligo a televisão para me inteirar das noticias do dia.
E volto a minha sala. Olho ao derredor. Enquanto a inspiração não me toca abro as duas janelas. Faço questão de dar uma olhadela em direção ao meu passado. A mesma rua que daqui se avista por quase inteiro. Vislumbro os dois lotes vazios. O de cima era a casa onde viveram meus pais. O de baixo onde meu tio Chico Rodarte criou familia.
E, como o sol brilha forte tenho de cerrar as persianas verdes que. De tão velhas precisam ser trocadas. Para que a luminosidade do sol não ofusque as minhas meninas dos olhos. Mesmo assim acontece. E, hoje cedo. Já que só me resta um dia para ficar por aqui. Amanhã, quando o dia for fatiado pela metade parto em direção a outro gramado. Mais ao sul. Não o gramado que meu amigo Tom Zé deve concluir neste final de semana em minha rocinha encantada. Onde, quando penso que tudo está terminado ainda faltam pequenos detalhes para que ela se torne um verdadeiro paraíso.
E a cidade de Gramado me espera de flores abertas. Onde irei passar o Natal junto a um naco de minha familia. Tendo o querido Gael a enfeitar a minha árvore onde o bom velhinho vai estar dizendo “oh oh”. Com seu sorrisão aberto e seu ar galhofeiro.
Hoje abri a janela de minhalma para poder ver além das entrelinhas. Para me propiciar não apenas enxergar o que minha visão alcança. Sem se cansar.
Hoje abri a janela de minhalma para poder vislumbrar a quão majestosa é a vida que me cerca. E como o sol agora se mostra radiante. De uma amarelice luxuriante. E o céu? Me pergunto. Me questiono. Ao mesmo tempo me indago. Será que em verdade é pra lá que iremos em outra vida após esta?
Hoje deixei aberta a janela de minhalma para poder tentar identificar, dentre todos que me rodeiam, quem deveras é meu verdadeiro amigo?
Seria o Jorge? O Tiãozinho? Ou aqueles cãezinhos que ladram mas não mordem. De nomes singelos como sói eles dois: Clo e Robson. Os quais, nesta hora temprana devem estar esfomeados a espera da ração que a eles vai ser distribuída pelo meu outro bom amigo Tom Zé.
Hoje, neste dia vinte e dois de dezembro, manhã iluminada feericamente, do lado de fora da minha janela o sol ainda brilha. Entreabri a janela de minhalma para poder fazer frente a mais um dia que nasce. A mais uma hora que passarinha. Já que eu passarinho. Eles e vocês passarinharão.
E não pretendo fechá-la tão prematuramente. Pelo menos por agora ou nunca mais.