Engraçado. Quando me perguntam a idade não reluto em dizer – 73.
Fi-lo não por que qui-lo dia sete próximo passado.
Aliás, pensando em ludibriar os anos passei por uma relojoaria dias antes de mudar de idade e lá comprei um relógio de parede cujos ponteiros andam ao revés.
Pensava, dentro da minha cabeça pensante, que, caso os ponteiros andassem em sentido anti horário a gente pudesse fazer como eles. Ao invés de completar setenta e três ficaria na mesma idade em que me encontrava. Não importa. A ser chamado de velho sinto-me mais confortável quando me chamam de tio sukita. Aquele tiozão gostoso. Que subia no mesmo elevador com uma bela garota de mini saia. E ela, olhando-me nas têmporas, exclamava toda faceira: “o tiozão. Você tá lindão. Quantos anos tem? A mim parece uns trinta e três. Se tanto”.
E eu, todo vaidoso, lá se vai a vaidade, descia um andar abaixo. E ela ainda me convidou a assistir a matinê do filme a turma da Mônica. Ah! Se a minha Rosa soubesse…
Aos cinco anos de idade, criancinha ainda, aqui cheguei vindo de Boa Esperanca. Foi lá que nasci. Não aqui. Mas, considero Lavras meu verdadeiro berço doiro.
Foi naquela mesma rua que aprendi a dar valor a uma boa amizade. A me equilibrar numa bicicletinha sem rodinhas. A velocipar numa patinete de duas rodinhas de rolimã (perdoem-me o neologismo Rodarteano). A me ruborizar quando uma garotinha sapeca me olhava de rabo de olho. E a me comover levando-me às lágrimas quando meu cãozinho Rebel acabou sendo morto ao me defender das mordidas de um canzarrão o dobro do seu tamainho.
Já aos quase dez fui contemplado, nas festas natalinas, com uma bola de capotão furada. Foi a primeira canoa furada que embarquei.
Aos quase dezoito, quando as espinhas faziam a festa na minha pele clarinha decidi-me.
Quem saberia dizer em ser doutor? Não fui eu nem meus pais.
Nesta idade. Quando nos dizem que somos maiores de idade. E nos facultam o direito a tirar carteira de motorista dei a minha primeira e não derradeira trombada num poste que entortou. Foi quando começaram a me chamar de barbeiro. Até hoje não tenho pelos carros verdadeira e imorredoura adoração.
Aos vinte e cinco anos me graduei em medicina. Não fui um aluno exemplar.
Mas minhas notas não ficavam abaixo da mediana. Ou em quase último lugar.
Aos quase trinta levei uma fechada de carro por uma antiga namorada. Foi quando cheguei da Espanha. E desta fechada resultaram os dois filhos que tenho. E os três netinhos que felizmente não puxaram o avô tiozão.
E como o tempo corre. Como um velocista a exemplo cito o grande campeão jamaicano. Agora aposentado das pistas.
Em alguns anos apenas me via dobrando a serra. Os quarenta me acenavam lépidos.
Naquela idade me sentia como se tivesse menos da metade. Aos cinquenta me via andando sozinho na mesma bicicletinha sem as rodinhas naquela mesma rua que daqui se avista pelos fundos.
Quando assoprei sessenta velinhas quase causei um incêndio na sala de visita da minha residência. Só não aconteceu o pior pela pronta intervenção dos bombeiros.
E lá se foram os muitos janeiros. Que deixaram rastro aos fevereiros e meses seguintes.
Uma vez chegado os setenta não dei pela coisa. O espelho. Alcagueta fofoqueiro não me deixava mentir. Ou sonegar idade.
Não importa os anos que nos cavoucam os costados. Tenho-os rijos como cerne de amoreira ainda sem os carunchos da idade.
Aos trinta me sentia como um menino. Aos quarenta nem me imaginava quarentão. Aos cinquenta competia com os jovens e me saía melhor que eles. Aos sessenta nem tentem me acompanhar na corrida.
Já agora, passados os setenta, contabilizo três. Tenho forças e tirocínio para escrever mais não sei quantos livros.
De fato. Deveras. A idade medida em números não importa. Basta que nos abram as portas do céu quando chegar a hora.