Quem ainda não tentou seguir o caminho de seus pais se não deveria tê-lo feito.
Mesmo que este tenha sido por vezes equivocado. Sendo uma escolha mal feita. Embora sempre tenha pensado que errar uma vez se perdoa. E persistir no logro mais de uma vez trata-se de um sinal evidente que não aprendeu a lição.
A cada passada retomamos o ritmo. A cada encruzilhada. Se não perguntarmos pra onde vamos podemos nos perder pelo caminho. A vida é feita de escolhas. Umas melhores que as outras. Já as segundas se fazem intempestivamente numa tempestade de ideias amalucadas que a gente nem se dá conta de quantas são.
Já fui em frente e retrocedi. Já fiz meia volta e percebi o senão que estava cometendo.
Já pretendi deixar minha familia uma só vezinha apenas por puro cansaço e choque de ideias contraditórias. Ainda bem que fiz a opção certa e aprendi que o bem mais precioso que nós conquistamos aqui na terra são a esposa e uma penca de filhos e netos. Quem sabe Deus vai me presentear com uma bisneta em algum Natal mais adiante?
Quando aqui cheguei. Na finalidade de começar a minha vida de médico. Uma vez egresso das terras de Espanha. Assim que ajuntei algumas economias. Parcas e exíguas. Acabei por comprar um pedaço de chão sujo nas bandas da linda Ijaci.
Naquela rocinha pequenina. Onde nasciam bezerrinhos aos montes. Onde vacas paridas escondiam a cria num sarandi qualquer. Onde porcos grunhiam famintos à espera do fubá com soro de leite azedo. Onde canarinhos da terra ciscavam o esterco do curral a cata de insetos quaisqueres. Onde o jacu piava na copa das jabuticabeiras prestes a madurar as frutinhas doces como favo de mel. Pensava. ingenuamente, que leite pode ser dado pela vaca graciosamente. Sem nenhum esforço ou gastança. Nem a razão de o leite ser branco saído de uma vaca preta como carvão tição.
Mas, foi só o tempo passando. As estações se metamorfoseando. De primavera nasce o verão.
E eu, médico assoberbado de trabalho. Desdobrando-me em plantões intermináveis. Trocando o céu negro pelas madrugadas ensolaradas. A chuva pelo clarume das nuvens clarinhas. Fui, pouco a pouco, redescobrindo que vaca não dá leite. Tem de tirar. E pra tirar leite que compense a trabalheira tem-se de acordar em plena madrugada. Faça chuva ou descabele o sol a lida não pode ser postergada. E a rotina nos enche de orgulho a vida do homem do campo. Que supre a cidade não apenas de alimentos variados. Como nos dá lições de honestidade e estoicismo inigualáveis.
E, depois de anos e anos de tentativas malogradas de tirar lucro da terra aprendi que vaca só dá lucro aos olhos do dono. E assaltou-me a ideia de passar adiante a incumbência de tratar as minhas vacas e delas tirar renda.
Foi uma feliz decisão.
Há mais de dez anos arrendei meu pedaço de pasto sujo a um amigo de mãos caludas e tez queimada pelo sol.
Foi só virar a folhinha e a coisa mudou da água suja para água da mina.
O arrendador da minha terrinha não brinca em serviço. Pôs as vacas magras para engordar. Plantou milho a perder e doer as vistas.
Enquanto eu. Melhor dizendo meus mais de não sei quantos retireiros tirávamos quinhentos litros de leite ao mês o novo morador da casa amarelazul tira a mesma quantidade ao dia. E não tem de pagar outro para fazer o serviço.
As crias são tantas que nem cabem neste escrito. As vacas de úberes cheios são vistas pastejando sossegadas na nova pastaria de um verdume ímpar.
E o meu arrendador não sabe em qual pasto vai deixar a nova remessa de novilhotas a parir.
O cenário da minha rocinha antes prejuizenta não se deixar reconhecer.
Para não me afastar por completo do meu pedaço de chão deixei alguns parcos hectares à beira da represa do Funil. Ali ainda estou tentando edificar meu paraíso. Quando penso que está prestes a terminar falta algum pequeno detalhe. Um gramado aqui. Um pomar acolá. Um pastinho onde meus cavalos possam relinchar em paz. A mesma paz que desejo pra mim.
Ali, além das melhoras que meu arrendador tem feito continuamente. E penso ainda sermos amigos velhos.
Pensando no sentido contrário das horas. Vendo como era e como agora está a minha amada rocinha.
Penso no esforço e na rotina pesada que meu amigo Roberto impingiu a minha propriedade.
Não lhe tenho inveja e sim orgulho e genuína amizade fraternal.
Você chegou lá onde eu gostaria. E eu tento seguir suas pegadas.