Meu querido Januário

Os três mosqueteiros em verdade eram quatro.

Athos, Porthos, D’Artagnan e Aramis. História novelesca escrita por Alexandre Dumas. Escritor francês que deixou imortalizada sua obra nas páginas de livros, filmes, novelas televisivas.

O livro foi inicialmente publicado como folhetim no jornal Le Siècle de março a julho de 1844 e posteriormente relançado em livro no mesmo ano pela editora Baudry.

Quem ainda já não assistiu a um filme com os quatro heróis não perca a oportunidade de ver pela primeira ou undécima vez como eu vi.

Deixando esses quatro descansarem em seus túmulos depois de tantas peripécias na França de antigamente vamos nos reportar aos tempos hodiernos. Cujo cenário é a nossa amada Lavras. Cuja filme foi encenado não pela rede Globo e sim pelas ruas de nossa cidade e zonas rurais.

Januário, Gibinha, o quatro olhos, Tampinha, cujo nome verdadeiro é Zé Arlei, e esse médico metido a escritor, foram companheiros inseparáveis desde os bancos escolares chegando ao final do segundo grau. Até tempos depois de ver graduados os quatro mosqueteiros. Que não usavam capa ou espada. Mas eram espadachins verdadeiros em seus ofícios pós adultos. Que infelizmente se apartaram. Os tres primeiros agora se juntaram no céu. E aqui na terra. No andar de baixo só resta eu. Para lembrar as aventuras de nós quatro. Tanto por cá como na Belo Horizonte que nos acolheu de ruas e universidades abertas.

Gibinha nasceu em berço doirado. Tinha um sítio maravilhoso na serrinha. Onde, quando em férias nos reuníamos para contar bravatas. E fazer diabruras peraltas.  Talvez tenha sido lá que teve início em mim o desejo de ser fazendeiro do asfalto. Ainda me lembro da data do seu nascimento: primeiro dia do mês de dezembro. Exatamente seis dias mais velho do que eu.

Já o Tampinha, agrônomo por predestinação, era o mais longevo de nós quatro. De estatura modesta. Em antítese com sua grande envergadura moral e força nos braços. Ainda hoje me é lembrado quando me encontro com sua esposa Fatinha no supermercado.

Deixando-me para o final das aventuras dos quatro mosqueteiros cito-me eu. Este médico urologista ainda longe de ficar assentado a um banco da praça. A contar histórias desse mesmo passado que quase sempre a ele me reporto.

JANUÁRIO. Em maiúsculo sim. Pois ele, meu amigo com quem dividia a república em Belô, era grande e forte. Responsável e construtor de prédios. Cujo apelido era Sansão. Um caboclo cujo único defeito era ser amigo de verdade. Se é que esta qualidade podia ser chamada de defeito. Embora saiba. De antemão que não.

Ainda me lembro de nós quatro: Januário, Rafael, Gilson a cara do Vanderlei Cardoso. E euzinho. O menorzinho do quarteto. De quando em vez por lá aparecia o Tampinha. O Gibinha não tanto. Compenetrados. Nem tanto. Cada um no seu quarto. A estudar tanto que fomos logo aprovados no vestibular. Eu na faculdade de medicina da UFMG. Januário na de Engenharia da Federal. E o Gilson arquiteto na mesma unidade só que em outro campus.

O Tampinha e o Gibinha ficaram por aqui mesmo até serem convocados a exercer as suas profissões no céu dos anjos e querubins. Prematuramente. Bom que se escreva.

Já o Sansão. Sem ainda uma Dalila que o fizesse voltar a nossa Lavras. Na nossa capital fazia enorme sucesso com as moçoilas casadoiras ou dispostas a uma bela noitada.

E como ele era grande e peludo como o Toni Ramos. De cabelo um tanto duro usava fazer tocas de meia de mulher para alisar o pelo.

Respeitoso e respeitador deixou cá. Em nossa amada Lavras. Incontavel amigos e seguidores.

Engenheiro acostumado aos cálculos não teve sorte quando calculou erroneamente a hora de atravessar uma avenida movimentada antes de chegar à PUC. Onde, recentemente tivera início a sua promissora carreira de professor de engenharia.

Seu fusquinha foi esmagado debaixo de uma carreta e ele, meu amigo Sansão, teve morte súbita.

Ainda me lembro de suas exéquias. Seu pai, o contabilista Geraldo Moreira. E sua saudosa mãe, dona Eunice, prima de minha mãezinha, não contiveram as lágrimas. Como eu.

De vez em quando, quando em visita ao campo santo, a fim de orar sobre o túmulo de meus pais. Passo por onde meu amigo querido Januário repousa em paz.

Ali deposito uma penca de flores. E as melhores lembranças nossas. Dos quatro mosqueteiros personagens de Alexandre Dumas.

Januário. Querido amigo. Fica aqui. Nestas singelas e chorosas palavras tintas num borrão de lágrimas. Toda a minha amizade. A qual estendo ao Gibinha. Ao Zé Arley e a todos aqueles amigos ausentes do meu saudoso abraço.

Um dia nos reencontraremos num lugar especial. Até lá.

 

 

 

 

Deixe uma resposta