Por Usucapião se entende o direito pelo qual uma pessoa pode se transformar em dona de um bem móvel ou imóvel. No caso de uso por um longo período de tempo sem a manifestação do proprietário original. Ou seja, o direito de posse após determinado período de uso sem a reclamação do dono.
Até certa maneira justificado desde que não haja, entre as partes, um contrato assinado estabelecendo as regras e o quanto o locatário com firma reconhecida em cartório esteja disposto a pagar pelo aluguel. Que deve ser reajustado segundo as leis que regem as locações anualmente. E todos os pertences do dono sejam devolvidos ao final do contrato em perfeito estado. E, tudo aquilo que o locador constrói. Se móvel ou não. Pode ser levado a nova morada. Ou permanecer no mesmo lugar caso não seja factível ser transferido no caminhão de mudanças.
Era bem entendido entre as duas partes.
Há mais de trintanos Nhô Chico. E um doutor da cidade vizinha àquela rocinha. Antes prejuizenta. Por um singelo motivo. O jovem esculápio. Pensando que todo médico poderia ser fazendeiro. A exemplo de seus colegas mais longevos. A maior parte deles já feitos defuntos mortos reduzidos a ossadas brancas e desprovidas de pelancas ou pelos. Por ter passado as férias de final de ano na rocinha encantada nas glebas altas de Perdões. Chamada de fazendinha da Cachoeira. Onde tomava banho, aos sábados apenas, numa baciona enorme. E jantava numa mesona de puro cerne de amoreira carne de panela e choriço fresquinho feito do sangue do capado gordo. Junto aos primos da velha e linda cidade berço de sua mãezinha chamada Rute. Depois de dar murro em ponta de canivete amolado. Acabou se amolando com sua propriedade. Que constava de um sarandi danado. Sem cerca de arame farpado carecendo ser refeita. Um curral caindo às mordidas de cupins. Duas dúzias de vacas magricelas que mal davam leite pro gasto. Um montinho de bezerrinhos cujos urubus fiscalizam de olhos gulosos. E finalmente algumas parcas galinhas cacarejantes ao despertar do sol. E só.
Depois de se esgotar por tanto prejuízos. Pois o jovem doutor mal sabia a razão de o leite ser branco mesmo saindo de vacas pretas. Se vaca de tres tetas dá leite como as de quatro perfeitos. Se quando a égua pisca é sinal de que vai aceitar a monta do garanhão equino.
O doutorzinho que aprendeu a usar o dedo indicador da mão direita com maestria para examinar a saúde da próstata. Depois de longos anos tomando manta nas catiras feitas com um vizinho de cerca de nome Geraldo da Dona Nega. De ficar devendo à cooperativa leiteira mais de não sei quantos mil reais. Cansado do negócio. Não do próprio situado entre suas pernas musculosas. Resolveu propor ao veio Nhô. Um bom sujeito da cidade de Nepré (entenda-se Nepomuceno). Um contrato de arrendamento de suas terras de boa cultura. Se bem que um tanto morradas num pendura. Carente de água. Não de mina. E sim a ela faltava um ribeirão de águas correntes e cristalinas onde lambarizinhos de rabo vermelho beliscavam a isca mas não saíam de sua piscina. Nem iam para a frigideira ou por um descuido iam parar nos latões de leite entregues ao lacticínio.
Depois de muitas tentativas malogradas de arrendamento. Enfim eis que surgiu do alto do morrão agudo o tal de Veio Chico.
Era um veio trabalhador e confiável. Até a curva da encruzilhada.
Acertaram um precinho camarada pelas suas terras desleixadas depois da passagem de não sei quantos retireiros. Um a cada ano.
Não vou enumerá-los um a um. Apenas merece menção o de nome Custódio Noticia uma pior que a segunda e a terceira. Home vindo de Varginha. A cidade que se notabilizou pela passagem fugaz de um tal de ET. Mas ele era uma boa pessoa. Não um enxadachim de primeira ou um enxodachim que prestasse.
Nhô Chico não era tão veio assim. Parecia ter cinquenta anos. No entanto só contava. Além de piadas de português. Com trintanos inexatos de idade.
O contrato foi assinado pela muié do Nhô Chico. Uma moçona louruda de oios verdes maritacas. Ainda sem fios. Não de luz e sim da própria carne.
O que de mais o veio Chico apreciava era jogo de futebol.
Os quais assistia num veio radim de pia. Que de tanto usa gasto.
Mais anos se passaram. A amizade entre o veio Chico e o doutô da cidade aumentou. Tudo que o dotô da cidade. Que amava roça como se ali tivesse nascido e não na cidade de Boa Esperança.
Acontece que. Para não ficar longe da sua rocinha. Agora uma belezura. O dotô construiu uma linda morada à beira da represa que as águas do rio Grande ajudaram a fazer. E ali passava todos os finais de semana por vezes só ou mal acompanhado de seu amigo Marcelo Cavalo Manso.
Era uma festa pros oio ver tanta beleza junta. De um lado duas casas magnificas.
Do lado de cima uma casa de dois andares. E que vista da sacada se podia ver. Do lado de mais embaixo um salão e perto dele uma piscina azulzinha.
Avinhava-se a copa do mundo de futebol. A mesma que a Argentina se sagrou campeã merecidamente.
E a amizade entre o dotô do dedo em riste e Nhô Chico ia de vento em popa.
Nunca os vi em desavenças.
Até que. Numa tarde chuviscosa. Nuvens cinzentas se transformaram numa aguaceira enxurradenta. Por um motivo sem pé nem cabeça a relação entre os dois azedou como leite no resfriador parado por falta de energia.
Nunca vi Nhô Chico soltando fogos pelas ventas. Nem o dotô com o que lhe restava de cabelos tão arrepiados.
Vou repetir o quando o veio Chico amava a seleção argentina. E como ele torceu para que ela fosse campeã.
Já o doutô da cidade perto amava a belle France. E ele era mestre nas palavras como tinha maestria em fazer o toque no fiofó dos mais de quarenta e cinco anos.
A discussão entre os dois só não terminou em tapas por intervenção do amigo da onça Marcelo Cavalão Castrado.
Estas foram as últimas palavras que ouvi da boca aberta do Nhô Chico: “quer saber? Seu dotozinho de nadica de nada? Vo pidi uso campião destas terrinhas ruinzinhas. Nunca mais ponho meus pés aqui.”
Num sei se ele pidiu. Eu também nunca mais puz meus pezinhos lá.
Agora. Que a Argentina foi campeã nunca puz em questão. Embora a minha torcida tenha sido. Depois do Brasil. Pela belle France da tour Eifel e do gran rio Sena.