Como de costume acordo ao cantar do galo ou a mesma hora em que o padeiro madrugão abre a casa dos pães.
Não tenho pela noite grande admiração.
Dizendo melhor dela tenho receio. Um receio tolo de que no despertar do dia vindouro meus olhos não se abram novamente.
Todo velho talvez tenha este mesmo temor. Para que perder horas de sono se não sabemos quantos dias mais iremos viver?
Durante a escuridão da noite a única coisa bela que se pode ver é o brilho das estrelas e o amarelo tímido da lua que enfeita a noite dos enamorados. No mais prefiro ver o sorriso do sol acordar por entre nuvens clarinhas com o algodão doce sem qualquer corante que lhe venha manchar o brilho.
E nada mais me apetece sobre a noites enluaradas. Fora as madrugadas que fazem parte delas.
Amo despertar nas madrugadas com aquela brisa leve que mal permite alavancar fios dos meus parcos cabelos.
Amo as madrugadas vestidas em qualquer roupagem que ela vista. Mesmo desnuda em pelo.
Tenho verdadeira adoração pelas madrugadas. Sejam elas calorosas ou frias como um iceberg.
Adoro despertar bem cedo. Passar uma ducha fria pela minha face sonolenta. Mesmo tendo de encarar o espelho pérfido alcagueta fuxiqueiro.
Nutro um amor verdadeiro pelas horas tempranas. Não que tenha asco do meio dia. Ou depois das treze horas. Que seja nas outras horas do dia.
Amo ver o acordar do sol. Que seja num dia cinzento. Ou claro e ensolarado como se mostra esse dezoito de dezembro. Deste domingo dia do final da copa do mundo de futebol.
Adoro as madrugadas frias ou calorentas. Amo vê-las despertar de sua noite solitária ou acompanhada de algum fortuito amante. Não sei se as madrugas têm algum amor escondido entre seus lençóis ou cobertores quando frio faz.
Pelas madrugadas nutro um especial encantamento. Por elas me inflo como um balão de gás à solta pelos céus de brigadeiro.
Ah! Se não existissem as madrugadas madrugais. É como se a flor de onde exala um doce odor não fossem os beija flores beijadores a lhe fazerem a corte.
Tenho por elas não somente paixão como veneração. Como por minha adorada mãezinha sentia quando ainda a tinha em meus braços.
Pelas madrugadas amo-as a exaustão. Amo caminhar por elas. Aspirar pelas minhas narinas desentupidas todos os seus aromas. Sentir o vento ventando de leve assoprando as folhas mortas. Ou durante uma chuva que caiu durante a noite. Atapetando o chão com seus pingos que ainda não secaram.
Amo de verdade as madrugadas madrugadoras. Não as que acordam tardiamente depois das seis e meia.
Se pudesse suplicar ao Papai Noel um presentinho qual seria ele?
Quiçá uma bola de capotão? Um patinete de ferro batido. Não num liquidificador usado. E sim encontrado um ferro velho. Jogado fora e sem serventia por um garoto moleque tal e qual eu fui a anos passados?
Não.
O meu pedido como presente de Natal seria ganhar todas as madrugadas de presente. Embrulhadas num ninhal de nuvens clarinhas. Ou adornadas por um papel multicor tendo como laço de amarração todos os raios de sol.